Espiral #37: Celebrando o amor

A volta dos festivais de música, WME, Slavoj Žižek, Byung-Chul Han, NFTs, Laurie Anderson, Kate Moss, Decentraland

Pedi pro meu amigo Tamba uma playlist bem ensolarada para eu arrasar nos encontros nos lagos. Dê play para uma boa companhia na leitura desta newsletter.

Desde que me mudei para Berlim eu comecei a comemorar o Dia dos Namorados no dia 14 de fevereiro. No primeiro ano, eu e o Ola saímos pra jantar e armamos todo um climão de sedução. Já em 2021 o lockdown não permitiu a deixa e pedimos a nossa pizza favorita para comer no sofá assistindo alguma série em que estávamos viciados.

Mas meu coração latinoamericano se acostumou com o dia 12 de junho, que tem sol em gêmeos como eu, para celebrar a data. Então, comemoro aqui e lá, afinal tudo é apenas um apelo comercial que nos dá uma boa desculpa para parar tudo e amar um pouquinho com mais delicadeza. Celebrar o amor que vai sendo atropelado pelo nosso dia-a-dia.

A gente tá aí na correria esquecendo esses momentos. Briga, se estapeia, ameaça terminar ou se faz de invisível, mas aí vem o Dia dos Namorados passando pano em tudo e a gente se ama, dá risada juntos, celebra e faz juras de amor.

Aqui em casa foi sempre tudo uma calmaria. Um dia desses um amigo me perguntou ao telefone: “Mas Lalai, vocês nunca brigam?”. Não, só umas discussões bobas de vez em quando. “Mas em algum momento um dos dois já pensou em terminar?”. Não, pelo menos eu não. “Não é possível, ninguém vive assim”. A gente vive.

Talvez ele tenha segurado a onda antes de perguntar: “Pô, mas não é chato?”. Não. Porque tem gente que já me perguntou. Aqui é paz, é confiança, é gostoso, é risada e às vezes um pouco de dramas que insistem em me acompanhar. Mas aí o Ola me dá colo.

São 12 anos, indo para os 13, de uma história que eu não canso de contar. Tenho orgulho de como construímos nosso amor, de como estamos aprendendo sempre um com o outro, de como estamos sempre rindo juntos, de como estamos sempre fazendo planos e sonhando com o nosso futuro.

Conviver com alguém por tanto tempo não é fácil. Eu, geminiana que se entedia fácil, sempre fiquei prevendo o fim das minhas histórias mesmo querendo que elas durassem para sempre. Eu não sei se a gente vai durar, mas enquanto estamos juntos, está durando. Afinal, quando é esta data para sempre? Onde ela está que eu não acho no calendário?

Neste último ano, o nosso amor foi colocado à prova. Vivendo juntos 24/7, tiveram momentos em que eu quis pular da janela enquanto sorria forçadamente perguntando se ele queria um café. A culpa? Minha, claro! Sou espaçosa. De repente, o meu espaço desapareceu. Procurei um curso online gratuito para resolver o problema. Não achei. Tentei reclamar sobre o assunto na terapia, mas outros assuntos furaram a fila.

Então, como tenho feito nos últimos tempos, quando eu acho que vou explodir que nem o chiclete do Candy Crush, eu saio correndo pelos corredores e vou pra natureza. Aí ela me acalma, me abraça e me enche de boas lembranças fazendo eu voltar feliz para casa com um bolinho de banana nas mãos para comermos juntos enquanto eu desabafo sobre meu mau estar.

Eu tenho uma admiração tremenda por ele aguentar meus dramas, meus dilemas, meu chororô por nada, minhas reclamações. Eu sei que não sou fácil. Quando eu lembro disso, eu danço e canto alto para vê-lo rir. Se eu quiser deixá-lo feliz é só dizer que topo escalar, correr ou planejar uma viagem de esqui para onde ele quiser. Para os olhos dele brilharem, eu peço para ele me dar aulas de ciências da computação. Aí ele enche o peito todo orgulhoso e pacientemente me explica a mesma coisa 10 vezes até eu pular de alegria por ter entendido.

Uma amiga me perguntou: “Quando você sente que estão conectados?”. Eu pensei, porque sempre que ele está perto de mim e eu não estou vivendo dentro da tela do meu celular, eu me sinto conectada a ele. Mas aí veio uma lembrança, tão doce que eu me derreti e respondi: Todos os dias de manhã quando eu acordo com ele me abraçando e me dando um beijo. Todos os dias há 12 anos é assim.

PS: Esta newsletter deveria ter sido disparada no dia 11 de junho, mas por minha desorganização, ela se atrasou, mas continua valendo. :)

Music To Watch “Girls” To

Assumo que ainda não estou acostumada em ver festivais de música confirmando suas datas para 2021. “Hi, this is real life?”, porque eu não to acreditando. O Dekmantel é um dos festivais que confirmaram sua edição para 2021. Antes da pandemia já era um deus nos acuda conseguir ingresso, agora vai ser dedo no cu e gritaria (desculpem-me meu linguajar). É, os festivais na Holanda e na Dinamarca vão acontecer a partir de julho na sua capacidade máxima (paywall). Eu confesso que me dá uma paúra pensar nessa aglomeração toda.

O Fuji Rock, que rola no Japão, confirmou sua edição para agosto, mas com a premissa de que os participantes não deverão conversar e nem aplaudir.

Aqui em casa já garantimos ingressos para o 2º finde do Primavera Sound 2022, porque quero ver o Yeah Yeah Yeahs! ao vivo depois de 15 anos! Eu nunca comprei um ingresso com tanta antecedência na vida. O inacreditável é que mesmo com os altos preços, os ingressos estão esgotados.

O Festival In-Edit 2021, dedicado aos documentários sobre música, começa no próximo dia 16 e fica disponível até dia 27 de junho na plataforma. O Pop Fantasma selecionou 15 filmes imperdíveis para assistir.

A conferência WME - Women’s Music Event - comemora seus 5 anos nos dias 18, 19 e 20 de junho numa grandiosa edição online intitulada “Unreal”. É o maior festival brasileiro de celebração da mulher na música. Eu vou mediar a mesa sobre “A inserção no mercado de moedas digitais e algumas verdades sobre a febre do momento, os NFTs”, com a Janara Lopes (Phonogram.me) e a Anne Chang (minha musa do blockchain). A conversa acontece no sábado, das 15 às 16h (horário SP).

O gênero musical brasileiro desande, estilo que mistura techno e Bass House, ganhou um belo artigo feito com profundidade na MixMag nas mãos de Felipe Maia.

Já ouviu o “Path of Welness”, o novo álbum do Sleater-Kinney? Corre lá!

Tiredness (A sociedade do cansaço)

Um show bem calminho da pianista Eydís Evensen, no KEXP at Home, que cai como uma luva para aliviar um pouco o nosso cansaço.

Depois de várias tentativas, finalmente eu li numa sentada “A Sociedade do Cansaço”, do Byung-Chul Han. Para quem ainda não leu, Han discorre sobre a atual sociedade do desempenho em que vivemos, que tem nos levado a uma auto-violência neuronal desencadeando problemas como burnout, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade e a depressão.

Saímos da sociedade da obediência, em que o lema era “você deve”, para o “sim, nós podemos”, nos proporcionando uma falsa sensação de liberdade. Nós somos ao mesmo tempo senhor e escravo de nós mesmos na medida em que nos entregamos a uma corrida interminável para melhorar o nosso desempenho acreditando que podemos sempre ir mais longe, por isso pifamos (burnout).

Numa entrevista recente, Han falou sobre a ironia do coronavírus surgir justamente nos tempos de selfie, que traduz o narcisismo de nossa sociedade. O vírus intensificou esse narcisismo nos fazendo o tempo todo ser confrontados com nossos próprios rostos nas reuniões através de telas, produzindo uma espécie de selfie infinita e isso nos cansa.

O vírus da covid-19 desgasta nossa sociedade já esgotada, aprofundando as linhas das falhas sociais patológicas. Isso nos leva a um cansaço coletivo. O coronavírus também poderia ser chamado de vírus do cansaço. Mas o vírus também é uma crise no sentido grego de krisis, o que significa um ponto de inflexão. Pois também pode nos permitir reverter nosso destino e fugir de nossa angústia. Ela apela, com urgência: mude de vida! Mas só conseguiremos fazer isso se revisarmos radicalmente nossa sociedade, se conseguirmos encontrar uma nova forma de vida imune ao vírus do cansaço. - Byung-Chul Han.

O Slavoj Žižek, em seu livro “Pandemia: Covid-19 e a reinvenção do comunismo”, rebate a tese de Han no capítulo “Por que estamos sempre cansados?”, dizendo que a exploração por terceiros não foi substituída pela autoexploração, mas sim transferida para países do Terceiro Mundo. Žižek dá um ótimo exemplo sobre o trabalho em empresas como Microsoft e Apple, que pode ser organizado de maneira cooperativa, mas os produtos finais continuam sendo montados de maneira bastante fordista na China ou na Indonésia. Ou seja, o trabalho de chão de fábrica foi apenas terceirizado para fora do país.

Deixo a recomendação do documentário “Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han em Seul/Berlim” (legendado em português). Na minha lista ficou pendente a leitura deste extenso artigo “O cansaço é também colonial? Crítica à sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, desde o Pluralismo Bioético”, de Marianna Holanda.

Was match Berlin?

Berlim retomou as atividades bombando no rolê. Quem anda pelas ruas da cidade até acha que a vida voltou ao normal. A incidência atual de infecção por aqui é de 15 a cada 100 mil habitantes nos últimos 7 dias. Ou seja, estamos com a luz verde e eu estou há uma semana sem conseguir uma mesa disponível para jogar a minha atual paixão, o ping pong. Tá tudo lotado!

As academias reabriram com alguns protocolos, mas já não tenho mais desculpa para não malhar. Os mercados de pulga voltaram a rolar e conseguir um horário para usar uma piscina pública só é possível com um alarme para nos lembrar de comprar assim que as vendas de ingressos são abertas.

O Berlinale também está com uma edição de verão do festival de filmes com uma mostra acontecendo a céu aberto, mas conseguir ingresso foi para guerreiros.

As festas a céu aberto voltaram a acontecer neste fim de semana, não apenas as legais, mas várias ilegais se espalharam pelos parques de Berlim reunindo até 1.500 pessoas. Checar a lista de eventos rolando por aqui causa até um comichão no estômago. Neste último finde ganhamos um novo club, o ÆDEN e no domingo foi a vez da Ellen Allien tocar numa festa para 300 pessoas numa festa piloto de reestreia do Revier Südost, casa que abriu suas portas no último verão. Mas lembrando: as duas são open air. Os demais clubs continuam fechados desde março de 2020 gerando um debate a respeito, que terá seu futuro discutido pelo Senado em reunião nesta terça-feira (15.06).

Token

Still da obra Crossing the Interface (DAO) XIII, de Holly Herndon and Mat Dryhurst.

Finalmente a Menta Land, um novo negócio que estou começando com a Bia Pattoli, está finalmente ganhando forma e projetos de NFTs estão começando a aparecer. Ando cada vez mais fascinada com as possibilidades que surgem junto com as novas plataformas e tecnologias.

Vários artistas que exploram inteligência artificial têm conseguido transpor seus experimentos para os NFTs criando obras que só faz sentido existir desta maneira, como a Bloemmenveiling, da artista Anna Ridler.

Quem também tem explorado outras maneiras de fazer música é o RAC, que já bateu a cifra de 1 milhão de dólares com venda de NFTs, muito mais do que ganhou com as vendas de seus álbuns nos últimos 10 anos anos. Recentemente ele lançou “Circular”, um master lançado em camadas individuais. Cada camada é propriedade de uma pessoa diferente, que pode alterar a música individualmente afetando a música inteira. É uma música que não tem uma versão final. Cada vez que você acessar o Async, onde a música está publicada, você poderá ouvir uma versão diferente.

Concordo com a Vickie Nauman neste artigo sobre NFTs e o RAC: “A questão é que agora os artistas têm uma escolha que não tinham antes. A arte está evoluindo por causa da tecnologia, e a tecnologia vai evoluir por causa da arte, e é aí que fica realmente empolgante”.

A nova plataforma dedicada à música & NFTs OneOf, que tem Quincy Jones como um dos sócios, será lançada com nomes de peso, como Whitney Houston, Doja Cat e John Legend. Seu diferencial será o pagamento em cartão de crédito comum (e também em cripto moeda). A ideia é democratizar o NFTs tanto para artistas quanto para os fãs numa plataforma baseada em Tezos, muito mais sustentável atualmente que o Ethereum.

A YellowHeart é outra plataforma de NFT focada em música e ticketing. Eles lançaram o “Fan Community Decentralized Automonous Organization (DAO)” com uma série de NFTs do Maroon 5 criada a partir do álbum “Jordi”. Um dos NFTs será feito em 3 fases baseando-se na medição de carbono feita num instituto de pesquisa. A última fase dará vida ao NFT que irá refletir o resultado do uso carbono. O dinheiro arrecadado será doado para iniciativas escolhidas pela comunidade que se formará a partir da compra desse NFT. Diferentemente do que estamos acompanhando, os valores são bem acessíveis custando a partir de US$ 25.

A Revista Gama fez um super especial sobre NFTs. Rolou até uma menção sobre a Menta Land no bloco de notas. <3

Finalizo o tema com uma ótima análise do Ted Gioia sobre o próximo passo, que soa estranho, na tokenização da música, que eu achei bem pertinente.

She’s leaving

Antes de partir, deixo aqui as rapidinhas:

Por ora é isso… obrigada a todos que me escreveram e fizeram meu dia mais feliz. Nos vemos em breve.

Share Espiral by Lalai Persson

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