Acometimento: uma carta pessoal
Cantei desafinada no café da manhã e renasci
🎧 Trilha sonora para esta edição: “Ikigai”, de Nadia Struiwigh
"Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram um bule azul com um descascado no bico, uma garrafa de pimenta pelo meio, um latido e um céu limpidíssimo com recém-feitas estrelas. Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios, constituindo o mundo pra mim, anteparo para o que foi um acometimento: súbito é bom ter um corpo pra rir e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser." Momento, Adélia Prado
Acompanhando no Instagram a viagem de uma amiga em Berlim, notei o quanto ela mostrava uma cidade interessante que tenho esquecido de ter à minha disposição todos os dias. Me dei conta de que deixei Berlim, cidade que amo, no piloto automático. Se, quando cheguei aqui, eu revirava Berlim de ponta-cabeça, de repente ela se tornou apenas cenário da minha vida. Parei de prestar tanta atenção.
Já faz algum tempo que me deparei com uma solidão morando dentro de mim. Minha mente costumava estar sempre ocupada compartilhando ideias, rascunhando textos, trazendo velhas memórias à tona. De repente, ela se tornou um grande vazio. O chuveiro, outrora lugar garantido para momentos de insights, passou a ter apenas o barulho da água caindo na banheira, enquanto a cama, companheira de ideias para textos e projetos, ultimamente me faz apagar tão logo encosto a cabeça no travesseiro. Mas aqui prefiro não reclamar. É uma grande sorte dormir bem nos dias atuais, mas as vozes dentro da minha cabeça se calaram e sinto muita falta delas.
Tenho culpado a revolução hormonal, a dificuldade de me integrar num país de língua desgraçada, a idade, o signo de Gêmeos.
Terminei o último ano completamente exausta física e emocionalmente. Olhei para o horizonte chamado futuro e não vi nada. Depois de quatro meses no Brasil, voltei para Berlim, achando que estava voltando para a casa errada. Talvez a crise dos sete anos estivesse querendo me pegar na curva. Foram dias pensando e discutindo com meu marido se não era hora de voltar para o Brasil. De repente, algo muito sutil aconteceu: acordei um dia sentindo uma energia fora do comum. Se o futuro tinha sumido por completo, nesta manhã ele surgiu como uma linha fina e brilhante à minha frente.
Cantarolei no café da manhã, contei histórias, peguei meu caderno e vomitei quatro páginas de texto que, há muito tempo, não acontecia. Eu estava diferente. Era como se estivesse saindo de um pesadelo longo. Alguma faísca, alguma coisa destravou.
Costumo dizer que sou uma pessoa em Berlim e outra em São Paulo. Aqui sinto-me mais tímida, menos segura, mais caseira. Afinal, sou imigrante. No Brasil, sou mais inteira, enquanto aqui sou um fragmento de mim. Em São Paulo, eu era feliz; aqui, sou contente. E naquela manhã me vi como me vejo em São Paulo. Inteira. Animada. A mente tomada por planos mirabolantes. A agenda ficou cheia. Fiquei com fome de gente, de arte, de música, da cidade.
Não demorou muito para o meu marido perceber. Estávamos a caminho do nosso restaurante favorito, como se estivéssemos indo celebrar meu novo momento, mesmo sem saber, quando ele disse: “Sua energia está a mesma de quando te conheci”. O rosto iluminado, os olhos apaixonados. Eu ri enquanto respondia que sentia o mesmo. E sim, fomos celebrar o novo momento. E nem acho que seja a mesma energia; ela é diferente. É uma energia nova, zerada, radiante.
Passei bastante tempo refletindo sobre por que diabos segui morando em Berlim. Será mesmo Berlim um ‘boy’ lixo que não me deixa ir embora? Depois de muito refletir, escrever, conversar, a conclusão é que o desconforto me move. A pessoa que descobri em mim nos últimos anos não veio de mão beijada. Ao contrário. Ela nasceu num parto difícil, de onde parecia não querer sair. Foi à força. Enquanto no Brasil eu vivia na beira da piscina com um drink na mão e sol na cara, aqui, tão logo cheguei perto da piscina, escorreguei, caí na água, no lado que não dá pé, e descobri que não sabia nadar.
Tem sido uma longa e difícil jornada para voltar à borda, mas agora estou de volta, mais confortável. Sem medo de cair novamente. A compensação é perceber que gosto mais de quem sou hoje. Essa virada recente, que ainda não sei como aconteceu, foi da noite para o dia e desatou várias amarras que me faziam sentir menor do que sou. E isso me libertou. Destravou a língua, o corpo, as ideias.
Voltei a ter urgência com Berlim: viver a cidade, conhecer gente nova, me encantar com as histórias da cidade e das pessoas, buscar parcerias, fazer as coisas sozinha, mesmo que seja ir numa festa. Tirar a bunda do sofá e bater perna a esmo.
Faz três semanas que esboço uma edição nova da Espiral, mas todas elas foram para esse tom confessional. Então eu desistia de compartilhar. Afinal, já não me expus o suficiente? Mas quando não foi assim? Quando a minha escrita não saiu do meu umbigo? E quando ela não foi libertadora?
Por aqui, a primavera chegou ensolarada e florida. As ruas estão cheias e barulhentas. Voltei a revirar Berlim como se tivesse acabado de chegar. Ontem a reconexão foi selada de vez.
Comprei um ingresso para um evento de performances num bairro distante do centro. Véspera de feriado prolongado, marido viajando, ninguém se animou a ir comigo. Encerrei uma reunião às pressas, me troquei e voei para a estação tão avoada que passei a parada, voltei, me atrasei ainda mais. Quando cheguei, o lugar estava vazio. Fui checar no Instagram: as performances começariam só às oito. Eram seis e meia. Voltei mais tarde.
O lugar estava cheio de vida. Público jovem, montado, uns de bunda de fora, uma coleção de cortes de cabelo que eu não via há muito tempo num só lugar. Música, filas para comprar bebida, conversas altas. A performance era a audiência. Fiquei ali observando o que sempre me fascinou em Berlim: essa diversidade toda, essa energia que é a mesma que sinto.
Decidi guardar essa sensação; fugi depois da primeira performance. Fui atrás da lua cheia para agradecer ao universo por, mesmo com todas as dificuldades de ser imigrante, ter decidido ficar aqui.
Nos últimos dois meses tenho vivido uma vida nova em Berlim. Vi vários espetáculos de dança comandados por coreógrafas extraordinárias, conheci a artista brasileira Anna Bella Geiger, de 93 anos, que veio especialmente a Berlim para a abertura de sua exposição; assisti um concerto ao vivo com 50 pianos posicionados em círculo em volta de mim; chorei de emoção com um coral ensaiando na Capela da Reconciliação no Memorial do Muro; fui numa festa numa horta comunitária; fui à várias listening sessions, numa delas fiquei imersa em drone metal por 80 minutos; vi pela primeira vez o Ben Klock tocar no Berghain e virei a noite dançando com o Four Tet num dos sets mais bonitos dele que já presenciei; fui barrada numa festa, mas entrei; vi a exposição do David Lynch; puxei papo com estranhos; assisti um show no quarto de um hotel; continuo buscando momentos de efervescência coletiva, porque é deles que me alimento.
E a Senda Berlin, que até aqui existia apenas para empresas, finalmente abre as portas para pessoas. Em breve estará no mundo. Quem sabe você se anima a vir viver um pouco a minha Berlim.
Hoje deixo apenas esse relatório lindo sobre ‘sound spaces & health’ e desejo feliz páscoa, porque agora é hora de ir pra rua.
Tschüss,
Lalai



Que bonito! E que bom que vc voltou!
Fiquei muito tocada pela forma como o texto transforma a exaustão e o vazio em uma espécie de virada silenciosa de reconexão com a vida. Achei legal a ideia de que o desconforto também pode ser um lugar de movimento, onde a gente se perde e se reencontra de outro jeito.