Ressurreição: Villalobos me tirando da cama
Dançar é sempre um ato de rebeldia e salvação
Playlist para esta edição: Ricardo Villalobos no Panorama Bar

Na Alemanha temos domingo e segunda-feira de Páscoa, somando quatro dias de feriado. Fiz planos como não costumo fazer: comprei ingresso pra uma performance na quinta-feira, ingresso pra um show no sábado, combinei almoço com amigos no domingo e ir ao teatro na segunda-feira. Na sexta-feira, único dia sem programa, um casal de amigos me levou ao norte de Berlim, área pra onde raramente vou. Estranhamento inicial, pois no norte tudo é limpo, polido, bonito. Não lembrava mais. Cheguei animada na casa deles, abrimos uma garrafa de vinho, conversamos, fofocamos, cozinhamos. A noite foi longa.
À meia-noite estava de volta pra casa com o compromisso de acordar cedo, porque no meio tempo uma amiga ligou afoita: “Lalai, o (Ricardo) Villalobos vai tocar amanhã às 11h.” “Da noite?” “Não, da manhã.” “Ahn?” “Coloquei nosso nome na lista, saio de casa às 9h.” “Ok, acho que não consigo tão cedo, mas estarei lá.”
Sem qualquer preparo emocional, voltei pra casa repetindo preciso acordar cedo, preciso acordar cedo, preciso acordar cedo. Lembrei então que precisava comprar ovos e vinho pra o almoço de Páscoa. Vai dar tempo? Ainda tem o show à noite. É muito compromisso. Fui dormir esbaforida, preocupada em não acordar, o que de fato aconteceu. Insônia, das raras, me abateu na madrugada. Virei pra cá, pra lá, li um livro, olhei o Instagram. Dormi. Sonhos horríveis. Acordei às 9h45, meio torta, meio querendo dormir mais, meio querendo saltar da cama e ir dançar.
Abri o WhatsApp e dele saltaram mensagens que me deixaram aflita: “Lalai, cadê você?” “Lalai, a Sonja está fazendo um set maravilhoso.” “Lalai, estou sóbria, vem.”
Me arrastei até a cozinha, fervi água, coloquei o último ovo da caixa pra cozinhar, já preocupada com os dos dias seguintes, pois os ovos estavam esgotados nos supermercados. Respirei fundo, peguei vinte gramas de grãos de café pra moer, cortei fatias do pão, joguei na torradeira, separei o queijo cottage, o azeite, o sal. Tudo apressado. O Villalobos ia entrar e eu estava ali passando o café.
Às 11h15 cheguei ao club de bicicleta alugada, voando sob o sol, preocupada se haveria lugar pra deixá-la sem pagar multa. Fila pequena, paguei, larguei as coisas na chapelaria, entrei e lá estava ele, o Villalobos, lânguido ao lado da Sonja Moonear, sentado debaixo da caixa de som. O som estava animado, o público virado do dia anterior, a pista lotada. Ufa, cheguei atrasada, mas ele também estava.
Observei as pessoas, a maioria jovem - mas não falaram que essa geração não sai de casa, não bebe, não usa drogas? Que geração era essa dançando ali na minha frente? Sorte a nossa que usar câmera era proibido.
Somente ao meio-dia o Villalobos levantou, pegou o fone, separou um vinil, abraçou a Sonja e entrou. Aplausos, assobios, gritaria e confusão. Entrou com uma música animada, que parecia ser continuação do set anterior.
Mas o que eu gosto nele é que nunca dá pra ter certeza pra onde ele vai nos levar. A pista estava no ápice e ele a manteve assim por um tempo, mas logo ficou claro que o caminho escolhido não estava na mesma sintonia com o que as pessoas tinham usado pra chegar até ali. Ele construiu um arco. Destruiu o som. Enfiou a gente no buraco da minhoca. Esvaziou a pista, o que nunca faz por descuido. Tirou pérolas do case e tocou músicas que nenhum outro DJ ousaria tocar. Entrou num loop de longos minutos construindo uma hipnose que ninguém mais tentaria. E quando ele tocou a abertura da Universal - aquela orquestra toda subindo, o globo girando na cabeça de todo mundo - eu ri, o cara ao lado riu, todo mundo riu e dançou ao mesmo tempo, porque só ele faria isso.
O momento em que a pista virou de novo foi quando ele soltou “Dance Yrself Clean”, do LCD Soundsystem. A galera levantou os braços, cantou a plenos pulmões, rindo uns pros outros, mal podendo conter a alegria. Foi lindo demais.
De todas as vezes que o vi tocar, nenhuma se pareceu com a outra. E é exatamente por isso que, quando sei que ele vai tocar, eu faço tudo pra estar lá — mesmo sem preparo emocional, mesmo sem ovo em casa, mesmo num sábado cheio de planos que abri mão de tudo só pra dançar com ele. Dancei por algumas horas. E, como sempre, foi ótimo.
Às três da tarde, eu já estava pela primeira vez no ano almoçando a céu aberto, num biergarten, um Käsespätzle quentinho, macarrão afogado em queijo. Depois saí caminhando pelo Treptower Park, onde fica o Zenner, o club onde o Villalobos ainda tocava. O sol batia forte, o Rio Spree ao meu lado, a torre de TV à minha frente. Eu estava emocionada sem conseguir explicar o porquê. Saí de casa numa manhã de sábado só pra ver um DJ tocar, cheguei atrasada, não tinha dormido direito e foi um dos melhores dias do ano.
Berlim é uma danada, faz coisas que continuam me pegando de surpresa, mesmo depois de tanto tempo. Talvez seja isso que me faça ficar.
"[..] tento encontrar o que há de comum em todas as festas: a dança, algo que pertence a qualquer pessoa no mundo inteiro. Está dentro do nosso corpo - você passa seis meses ouvindo techno industrial dentro da barriga da sua mãe. O seu batimento cardíaco, o batimento cardíaco da mãe, todas aquelas águas gástricas ao redor - juntos, isso soa como Basic Channel. E a experiência no clube é muito parecida com a experiência dentro da barriga da sua mãe: estar fechado, ouvindo essa música. A música é responsável por ainda estarmos vivos como humanos - ela realmente nos ajuda a não nos matarmos." - Ricardo Villalobos - The Guardian (2017)
Ricardo Villalobos
Villalobos nasceu em Santiago, cresceu em Berlim, e em algum momento entre os dois lugares entendeu que música é necessidade. Que o ritmo não é construção intelectual, é memória do corpo. Que uma pista de dança é, no fundo, um lugar onde as pessoas se lembram de que estão vivas.
“I’m a dancer and I don’t want to dance alone – this is why I DJ.”
Ele não toca para agradar. Toca para chegar em algum lugar. E arrasta quem tiver coragem de seguir — pelo buraco da minhoca, por quarenta minutos de loop hipnótico, ou pelo momento em que ele solta a abertura da Universal numa tarde de sábado — até onde a música para de ser som e vira outra coisa.
Não é técnica. Não é seleção. É que o Villalobos ainda acredita, depois de décadas, que a pista de dança pode ser um lugar sagrado. E quando alguém acredita nisso de verdade, todo mundo sente.
Se você estiver em Berlim no dia 1º de maio, fica a dica: todo ano ele toca na festa do Club der Visionäre. Se quiser garantir a entrada, chegue cedo.
Extra 🐺
🎬 The story of Ricardo Villalobos;
📰 Uma entrevista caprichadíssima com Ricardo Villalobos (2012);
🎧 Set extended dele gravado em Paris para sentir o gostinho do que é estar na pista com ele.
E por aqui….
📚 Li numa sentada: “Cabeça de santo”, da Socorro Acioli, e adorei a leitura. Fácil, envolvente e despretensiosa;
💥 O Descendo o machado achou o livro ótimo e a Ludimila Moreira não gostou;
🎧 No repeat, o novo álbum soturno do Polar Inertia;
♫ Fiz um guia de festivais de música para a revista Unquiet partindo do verbo ‘sentir’ - o que você quer sentir? Então para onde ir? Edição 22, é só baixar aqui;
🚫 O tema é batido, mas adorei a abordagem do artigo;
💻 Para quem faz muitas apresentações (ppt), eu recomendo bastante o Chroniqle. Não é barato, mas o resultado é bonito e pode valer a pena em muitos casos. Eles oferecem um teste gratuito que dá para fazer uma apresentação inteira com os créditos que vêm junto;
😴 Nas raras insônias que tive, testei este truque mental e não é que funcionou de fato??
Bom fim de semana!




Que delícia ler esse relato de páscoa em Berlim! Sdds páscoa 2024. Quem sabe 2027?
Me deu vontade de sair correndo para viver alguma coisa bonita. Acho que é muito poderosa a ideia de que dançar, às vezes, é exatamente o que nos devolve para a vida.