Espiral: Soundwalk e o direito de ouvir a cidade
Um mergulho rápido em caminhadas sonoras, seus privilégios e um convite
Trilha sonora para esta edição: Labyrinth of the Inner Ear, Terry Fox, um passeio guiado por Berlim conduzido por um homem cego, o artista Siegfried Saerberg, acompanhado por Terry Fox e Ernst Karel.
Existem escolhas que fazemos no automático. E outras que pedem reflexão. Essa ideia - de que podemos mudar nossa relação com o mundo através de pequenas escolhas conscientes - tem me guiado nos últimos anos. Morar em Berlim me ensinou a pensar no que visto, no que compro, no que como, no que escolho carregar comigo no dia a dia.

Por isso fiquei feliz quando a Insider decidiu patrocinar a Espiral. O conceito deles tem tudo a ver com o que tento praticar: roupas pensadas para durar, feitas com tecnologia que facilita a vida, com menos impacto no planeta. E, ainda por cima, o caimento é ótimo e as peças são bonitas. Já fui até ao Berghain usando peças da Insider (e passei no crivo do bouncer).
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Agora, vamos ao que interessa: a arte de escutar o mundo.
"Eu ouço
Eu sou
Eu recebo o que é
Escutando
Sem argumentos
Meu corpo é som
A escuta guia meu corpo
O som é a fibra do meu ser e de todos os seres sencientes sem exceção"
- Pauline Oliveros (tradução livre)
Há bastante tempo me interesso pelo som além da música. Minha busca tem sido por momentos sonoros contemplativos, em que me dedico a escutar com mais atenção os sons urbanos que compõem o panorama sonoro das cidades. Quando viajo, tento sempre captar qual som traduz cada cidade.
Em Berlim, esse som é o da ambulância. Aguda, ensurdecedora, sempre acima de 110 decibéis. Para contexto: tudo acima de 70 decibéis já começa a danificar nossa audição a longo prazo. Aqui há tantas que eu, que já sou um pouco surda, sinto a diferença. Elas estão me ensurdecendo aos poucos.
O som urbano está em toda parte, nas ruas, nos prédios, na movimentação das pessoas, nos trilhos dos trens, nas buzinas e por aí vai. Mas e se ouvir fosse mais do que um ato automático? Desde os anos 1960, artistas como Max Neuhaus e Pauline Oliveros nos convidam a escutar com uma atenção tão radical que o ambiente inteiro parece ganhar vida nova.
Oliveros, com sua prática de “Deep Listening” (Escuta Profunda), propôs exercícios como “Caminhe tão silenciosamente que a sola dos seus pés se tornem ouvidos”, transformando a caminhada em um ato de consciência plena.
Em 1966, Neuhaus convidou alguns amigos para um passeio em Manhattan. No encontro, ele carimbou a palavra “LISTEN” (escute) nas mãos dos convidados e os levou em completo silêncio pelo Lower East Side. Nada de explicações. Apenas o encontro com o “estrondoso rugido espetacular” de uma usina elétrica, a velocidade dos carros na rodovia, a vida das ruas residenciais.
A caminhada era a teoria. O sentido da experiência estava em escutar de verdade, uma atenção plena ao ambiente enquanto o corpo se move pela cidade.
Poucos anos depois, nos anos 1970, a compositora canadense Hildegard Westerkamp nomeou essa prática como soundwalk. A definição é simples: qualquer caminhada cujo propósito principal é escutar atentamente o ambiente. É sobre expor nossos ouvidos a cada som, não importa onde a gente esteja.
Uma soundwalk pode ser feita a sós ou em grupo, cobrindo áreas amplas ou se concentrando em um único lugar. Pode ser na cidade, no campo, na praia. O objetivo é despertar e reativar nosso senso auditivo, desenvolvendo uma escuta consciente e engajada da paisagem sonora ao nosso redor.
Westerkamp definiu isso como uma “limpeza de ouvidos”, ou seja, um processo para reeducar nossa audição. A ideia é que possamos escutar com mais equilíbrio, reconhecendo melhor os sons ao redor e reduzindo o estresse causado pelo ruído excessivo.
A soundwalk, assim, transforma a simples caminhada em um diálogo com o espaço e os sons que o compõem em uma época em que trocamos a escuta do ambiente pelos fones de ouvido.
Gostei muito deste guia de álbuns de soundwalks feito pelo Bandcamp. Foi ele, aliás, que inspirou este texto. Porém, ao me ler mais sobre a performance “LISTEN”, do Neuhaus, caiu uma ficha sobre o que um homem branco caminhando por Manhattan nos anos 1960 não precisou considerar: quem pode se permitir a pausa para escutar sem que a necessidade de segurança interrompa a contemplação? Quem pode fechar os olhos por alguns minutos para focar nos sons sem medo? E, ainda, quem são as pessoas que têm esse tempo de parar tudo para contemplar o som ambiente?
Quando morava em São Paulo, eu estava sempre em estado de vigilância constante nas minhas caminhadas. Os sons que me cercavam muitas vezes soavam ameaçadores, desde passos de pessoas se aproximando até motos acelerando ou o silêncio que precede o perigo. Não me sentia segura ao parar numa rua vazia para “limpar meus ouvidos” ou fechar os olhos para perceber melhor as nuances sonoras da Av. Paulista.

Em Berlim, surgiu minha relação com a escuta urbana. Comecei a me interessar por sons além da música através de artistas que utilizam gravações de campo para transformá-las em obra de arte ou inserir em produções musicais. Então, minha curiosidade de experimentar me fez prestar mais atenção aos sons de Berlim além das ambulâncias.
Atrás da minha casa tem um ponte, onde gosto de ir para ver o pôr do sol. Fico lá parada, só ouvindo os trens passarem embaixo, o ritmo metálico sobre os trilhos, as variações de velocidade e peso, as pessoas conversando em volta. Gosto de caminhar pelos parques em Berlim prestando atenção nos sons da mata urbana com pássaros que não conheço, o vento nas folhagens, o silêncio relativo que uma floresta urbana cria.
A diferença entre São Paulo e Berlim não é só de paisagem sonora, é na segurança que sinto na segunda. É poder desligar a hipervigilância, desviar a atenção do perigo para algo mais poético. Me entrego ao devaneio e escapo em sonoridades que nunca prestei atenção antes. É um luxo poder ouvir sem medo.
Encontrei essa ideia no trabalho da Paola Cossermelli Messina, sound designer e engenheira de som, que investiga quem pode, de fato, caminhar e ouvir sem medo. No ensaio “Soundwalking on the Edges”, ela compara percursos por áreas de alto padrão em São Paulo - silenciosas e vigiadas - com caminhadas pela Paulista, marcadas por controle policial e insegurança, mostrando como raça, classe e gênero definem quem tem o “direito” à escuta atenta. Para ela, é preciso caminhar com consciência dos próprios privilégios e entender que o silêncio também é político. A pergunta que guia tudo: quando a cidade permite parar e ouvir - e para quem?
Fiz uma pesquisa de artistas que expandiram o conceito da soundwalk para um lugar ainda mais político e questionador.
Akio Suzuki, nascido na Coréia do Norte e radicado no Japão, é um dos pioneiros da arte sonora explorando a escuta como prática desde os anos 1960. Em 1996, ele iniciou seu projeto “o to da te”, no qual busca pontos de eco no ambiente urbano, convidando o público a parar em locais específicos, marcados no chão com símbolos que remetem a orelhas e pegadas, para se atentar aos sons do entorno sem buscar interpretação.
O trabalho de Suzuki tem raízes em tradições asiáticas que valorizam a contemplação do som e do silêncio. Ele propõe uma escuta profunda, que vai além do que é físico, alcançando um estado de presença total onde o som revela o espaço de forma contínua e em constante mudança.
Emeka Ogboh, artista nigeriano radicado em Berlim, trabalha com paisagens sonoras para explorar identidade, migração e memória coletiva. Entre Lagos e Berlim, ele grava sons que definem a mobilidade urbana - vozes de cobradores, buzinas, mercados e o ritmo do comércio informal - criando composições imersivas que revelam como o som molda a experiência das cidades.
Em 2016, desenvolveu em Washington D.C. o projeto “Market Symphony”, no qual colaborou com cerca de cem jovens para registrar e remixar sons de mercados locais. O trabalho transformou a escuta em ferramenta de educação e engajamento comunitário.
Ogboh defende “desconectar os fones de ouvido” para ouvir o espaço como forma de reconectar-se ao entorno. Seu trabalho mais recente pode ser visto na 36ª Bienal de São Paulo.
Outra artista que expande a escuta em direção ao comum é a britânica Viv Corringham. Desde 2003, ela desenvolve o projeto “Shadow-walks”, em que percorre trajetos sugeridos por moradoras e moradores de diferentes cidades, grava sons e conversas e depois refaz o caminho sozinha, improvisando com a voz sobre essas gravações. Corringham transforma caminhadas comuns em encontros, uma forma de escutar histórias, memórias e presenças que muitas vezes passam despercebidas na cidade.
Caminhar e ouvir com atenção é um privilégio. Nem todo mundo pode se dar esse tempo ou essa segurança. Mesmo assim, esses artistas mostram que dá pra transformar a escuta em algo maior - uma forma de conexão, de resistência e de cuidado com os lugares.
Ver o pôr do sol de uma ponte em Berlim existe porque tenho segurança, tempo e mobilidade que não tinha em São Paulo. Reconhecer isso não diminui a experiência; apenas lembra que escutar nunca é só sobre som, mas também sobre quem pode relaxar na cidade.
O convite é simples: escute sua cidade dentro das condições que você tem. Comece onde puder, como puder. E, se der, leve alguém junto.
Se a soundwalk nasceu privilegiada, mas ela não precisa continuar assim. Escutar pode ser poesia, política e uma forma profunda de se conectar com os lugares que atravessamos.
Saia. Caminhe. Escute. 🔊
Hoje encerro por aqui, pois voltei para o hospital com o meu pai. As coisas estão bem, mas por ora, seguimos aqui investigando episódios que ocorreram nas últimas semanas.
Bom fim de semana!




Amei.
amei a edição, obrigada! já fiz algo assim numa oficina de poesia, mas não fazia ideia que tinha um nome e artistas trabalhando nessa perspectiva, amei.