À deriva #1
6 coisas que deslocaram meu olhar em maio
Maio foi um mês de despedidas discretas.
Voltei para São Paulo, dancei ao som dos 2Many DJs, matei saudades da família, assisti ao show do The xx e aceitei algo que tenho adiando há algum tempo: a Lalai que morava em São Paulo não existe mais.
É um luto estranho porque não tem velório e nem o momento exato em que a mudança acontece. Um dia a gente apenas percebe que já não cabe mais numa versão antiga de si mesma.
Talvez por isso tudo o que me atravessou no mês de maio parece falar sobre a mesma coisa. Fotografias que preservam mundos desaparecidos. Um espetáculo sobre obsessão e perda. Caminhadas sobre rios soterrados. Histórias em que o cotidiano esconde um abismo. Música feita para sobreviver. Um filme sobre a tentativa impossível de reconstruir um passado.
Passamos a vida encontrando nossos rastros em livros, cidades, músicas, filmes e pessoas. À Deriva nasceu da vontade de segui-los.
Aqui estão seis coisas que cruzaram meu caminho em maio e seguem comigo.
1. Peter Hujar / Liz Deschenes: Persistence of Vision
Há fotografias que parecem registros de um mundo que está prestes a desaparecer. As de Peter Hujar, não. Elas vibram demais para isso e causam nostalgia de uma história que não vivemos.
Hujar foi uma das figuras centrais da cena underground de Nova York nos anos 1970 e 1980. Era fotógrafo, participou de filmes de Andy Warhol e viveu dentro da cena vibrante que registrou.
“Eu fotografo quem se leva a qualquer extremo e pessoas que se agarram à liberdade de ser quem são.” - Peter Hujar
É uma exposição povoada por figuras que já vimos muitas vezes, mas aqui elas nos devolvem o olhar de outro lugar: David Wojnarowicz, Candy Darling, Susan Sontag, Fran Lebowitz. Tem também a foto “Orgasmic Man”, o homem da capa de “Uma vida pequena”, de Hanya Yanagihara.
Recomendo para ir além: “Peter Hujar’s Day”, de Ira Sachs, com Ben Whishaw, filme feito a partir de uma transcrição de uma entrevista dada em 1974.
A exposição “Persistence of Vision” fica em cartaz até 28 de junho no Gropius Bau, em Berlim, junto com a “Marina Abramović: Balkan Erotic Epic” (até 30.08).
2. Bluets — Schaubühne
Suppose I were to begin by saying that I had fallen in love with a color. - Maggie Nelson na abertura de “Bluets” - Tradução live: "Suponha que eu começasse dizendo que me apaixonei por uma cor”.
Maggie Nelson escreveu “Bluets” em 240 fragmentos numerados sobre a cor azul, luto e obsessão. A diretora Katie Mitchell pegou o texto e montou três mini estúdios no palco do Schaubühne. Cada ator com uma câmera e uma tela aos fundos, uma mesa que virava diferentes móveis, objetos diversos e uma cena sendo construída ao vivo. As capturas se fundiam e eram projetadas num telão enorme no alto do palco: a gente assiste o filme e vê como o filme está sendo feito ao mesmo tempo. O que vemos nunca é só a cena, mas também o esforço de construí-la.
O azul da Maggie Nelson não é apenas uma cor, é também um estado e a peça explora bem isso.
Segue em cartaz na Schaubühne, em Berlim. No dia 24 de junho será apresentada com legendas em inglês.
3. Psicogeografia: workshop com Fabian Saul / Flaneur Magazine
A Flaneur Magazine escolhe uma rua por edição1 e a escava em suas camadas de história, resistência e esquecimento. A Rua 13 de Maio foi uma das escolhidas.
O editor da revista, Fabian Saul, deu um workshop sobre psicogeografia2 a partir de vias aquáticas em Kreuzberg, Berlim. A proposta foi sair em grupos, escolher um canal e gravar o que encontrássemos relacionado à água, sensações e ao caminho em si.
Fiz meu trecho por um canal soterrado em 1926 que conectava o Landwehrkanal ao rio Spree. O leito virou um parque linear, mas as paredes de tijolo ainda estão lá. E a água surge em duas fontes ao longo do caminho e no final, o lago Engelbecken, oferecendo uma vista bonita para um café aos fundos.
Andar por cima de algo que existe mas não se vê é uma boa definição da psicogeografia ou como o Fabian descreve, “prying the streets open to look inside” - (abrir as ruas para ver o que tem dentro). Gravei ruídos, conversas e também alguns pensamentos que vieram à mente enquanto eu caminhava, como se o percurso fosse editando o que eu podia perceber.
Fabian falou também sobre a figura privilegiada do flâneur, historicamente um homem branco e burguês. Eu pensei em outro privilégio enquanto caminhava naquele caminho vazio e já escurecendo: o de andar sem medo. Caminhar à deriva em São Paulo tem um limite que em Berlim não existe. A cidade que você consegue explorar depende do corpo com que você a atravessa. Escrevi sobre esse tema aqui.
Deixo como sugestão de leitura “Flaneuse”, da Laura Elkin, que conta histórias de mulheres que caminham pela cidade.
4. O bom mal, Samanta Schweblin
O livro reúne seis contos, todos com a mesma iminência: personagens no limiar entre o cotidiano e o abismo. O perigo mora dentro de casa e nas relações mais próximas. A própria autora resume: “O comum é sempre uma mentira.”
O meu favorito é “Olho na garganta”. Nele, um menino de dois anos engole uma bateria enquanto o pai e a avó conversam na sala ao lado. O que vem depois - a lesão, o silêncio e o buraco na garganta - ela narra quase num sussurro. O horror entra pela porta dos fundos e fica.
Não sou fã de contos, mas fui fisgada pela escrita de Schweblin, que escreve como quem confia que o leitor vai terminar o trabalho. O texto acontece a dois e às vezes o que ela não diz pesa mais do se dissesse. Cada conto parece terminar um segundo antes de explicar demais.
5. Five Prayers, Joy Guidry
Joy Guidry é fagotista, compositora e produtora. Transicionou, enfrentou episódios graves de saúde mental e produziu “Five Prayers” quando as coisas quase foram longe demais. São cinco faixas que ela mesma descreve como uma playlist de sobrevivência.
A conheci ao vivo no The Infinite Now, no Kraftwerk. Foi um dos shows mais bonitos e emocionantes que assisti este ano.
O álbum é fagote, eletrônica e ambient. É para quem precisa de música que acompanhe sem pressionar, são cinco faixas como cinco respirações, Alice Coltrane sem a euforia, a calma do outro lado de algo muito escuro, para ouvir deitada no chão às três da manhã. É música que oferece lugar para respirar.
6. Good bye, Lenin / Adeus Lênin: 23 anos depois
Filme alemão de 2003, de Wolfgang Becker, conta a história de uma mãe fã do regime da Alemanha Oriental que entra em coma pouco antes da queda do Muro. Quando acorda meses depois, o filho reconstrói um mundo que não existe mais para protegê-la do choque.
Da primeira vez, assisti em São Paulo. E, agora em Berlim. Na primeira vez, “Adeus, Lênin!” me soou mais como uma comédia. Agora, achei melancólico ver alguém tentando encenar um mundo que acabou. A ideia de reconstruir um mundo para proteger alguém parte de uma premissa quase ingênua, como se fosse possível isolar uma história tão avassaladora do lado de fora.
Em Berlim essa ideia perde a força. O passado vaza o tempo todo, mas nunca inteiro. O filme funciona, talvez, não pelo que reconstrói, mas pelo que revela sem querer: o desejo de editar a história até que ela se torne suportável.
Para quem mora em Berlim e ainda está aprendendo o que isso significa, uma cidade que mudou muito antes de você chegar e os resquícios do Muro ainda aparecem no quintal de casa. É rever um filme vinte anos depois e reconhecer as ruas, a nostalgia de um lugar que nunca foi seu mas de alguma forma é, assistir a história com os pés no chão onde ela aconteceu.
No dia 01 de julho, o filme “Good bye Lenin” será exibido no Freiluftkino Friedrichshain, com legendas em inglês. Deixo aqui a bela trilha produzida pelo Yann Tiersen (o mesmo que fez a trilha de Amélie Poulain).
Psicogeografia é um conceito cunhado por Guy Debord nos anos 1950. É caminhar a partir das sensações que a cidade provoca, sem destino fixo.









Adorei essa ideia de perceber os rastros que ficam e como eles também ajudam a entender quem estamos nos tornando.
Parando rapidinho aqui só para dizer: adoro sua escrita e tuas dicas. Um bom finde para você!