Espiral: Anatomia de uma queda
Diário de uma má fase, Too Much e outras coisinhas mais
Trilha sonora para essa edição: The Fifth Dream, Azul Tiwaline
Julho chegou como aqueles convidados que aparecem sem avisar e reviram a nossa casa inteira.
Sou do tipo que raramente adoece, tanto que não lembro quando foi a última vez que tomei antibiótico na vida adulta. Mas bastou meu dentão, o incisivo frontal, começar a latejar na ponta para todo o equilíbrio se desfazer.
A dor veio sutil, apenas uma pontada ocasional, e eu, sempre otimista, imaginei que fosse uma sensibilidade passageira. De repente, eu precisei cruzar a cidade em dois trens rumo a uma consulta de emergência numa dentista, brasileira graças a deus, porque com dente não se brinca.
O consultório era diferente dos de São Paulo: nada de tela no alto projetando paisagens idílicas com trilha sonora para nos acalmar — era apenas um teto branco, no fim de um pé direito muito alto, onde me vi buscando o mar como o Jep Gambardella fazia quando se deitava na cama em “A Grande Beleza”.
Boca aberta, instrumentos frios, um sobressalto involuntário e o olhar da dentista se franzindo: “Você está com infecção na gengiva”. Ela então me manda fazer um raio-x. Faço, volto com a chapa nas mãos, entrego para ela e ouço “Hmmm, problema na raiz. Vamos testar a vitalidade para ver como está o dente". Aqueceu o bastão e veio com ele ameaçador em direção à minha boca.
A primeira encostada, no dentão, me fez sobressaltar. Sentiu? Sim! Que bom, o dente está vivo. E agora? Nada. Vou testar de novo. E aí? Nada.
E o diagnóstico chegou com a má notícia: meu incisivo lateral esquerdo havia morrido. Por fora, intacto e bonitinho, mas morto por dentro. “Necrosado” ela disse, tirando do dicionário um de seus palavrões.
Uma semana de antibiótico que desceu pior que feijoada antes de dormir, infecção controlada e, sem cerimônia, tratamento de canal sete dias depois. Nem metade de julho e eu já ali, na cadeira, transpirando com o medo dominando tudo. Mas correu melhor que o esperado me fazendo escapar direto para um lago lotado, respirando o verão.
Na quinta-feira a vida parecia normal. À noite, fui a um concerto de música experimental, onde fiquei das oito à uma, sorrindo com o problema bucal arquivado.
Sábado, me sentia renovada: faxina em casa, roupas e lençóis novos. O linho do lençol era a coisa mais fresca que eu sentia neste verão - e pela primeira vez, eu estava pronta para ele.
Domingo, parque com festival de música e amigos, quando notei uma irritação discreta no joelho. Ignorei. Na segunda acordei com a pele saltando vermelha e uma coceira horrorosa. Terça: outro consultório. Diagnóstico: alergia por usar roupas e toalhas novas sem lavar.
A melhora foi gradual. Quando pensei ter encerrado a maré de contratempos, sexta-feira desabei: corpo pesado, dor de cabeça, o dia lá fora sussurrando "você está perdendo o verão". Passei o dia na cama.
Mas no sábado acordei com energia suficiente para passar em dois aniversários, reencontrar amigos e relatar minha série de infortúnios, que incluiu um golpe na internet que me surrupiou cento e setenta euros. A má fase parecia ainda estar no meu encalço, mas pelo menos a saúde parecia melhorar.
Domingo seguinte? De volta à cama. Talvez Covid. Sei que soa anacrônico em 2025, mas o vírus segue derrubando algumas pessoas. Eu sou uma delas.
Não sou caso isolado. Vamos acumulando fadigas, empurrando desconfortos para debaixo do tapete, até que eles se reorganizam e nos obrigam a parar.
Pensei em quantas vezes parecemos funcionais, mas há algo lá dentro que está tentando escapar. Um grito que não sai, mas sentimos que ele está ali. É uma exaustão que não passa, mas ignoramos porque, bem, não sabemos muito o que fazer a respeito. O corpo às vezes é o único que ainda se lembra de dizer não.
Agora sigo melhorando, ainda tossindo, mas de olho no calendário. Afinal, julho tem menos de quinze dias de potencial pela frente - e esse convidado inesperado segue revirando tudo por aqui.
Too Much
Terminei de assistir “Too Much”, nova série da Lena Dunham. Achei um bom entretenimento até começar a achar a protagonista too much, mas depois voltei a gostar.
A série acompanha Jess (Megan Stalter), uma nova-iorquina bem-sucedida que se muda para Londres após o fim de um relacionamento e conhece Felix (Will Sharpe), um músico britânico marcado por traumas e medo de compromisso. “Too Much” segue os altos e baixos dessa relação cheia de vulnerabilidades, humor e auto sabotagem, enquanto ambos tentam recomeçar em meio a suas próprias inseguranças.
Terminei a série com mixed feelings sobre ter gostado dela ou não, então fui ler críticas (olha eu, super influenciável) e entrevistas com a Lena. Numa longa entrevista à Variety, Lena fala sobre seu renascimento criativo, reflete sobre fama, menopausa, corpo e crítica pública, sua experiência de viver em Londres e como tudo isso atravessa “Too Much”, que tem bastante sobre a própria experiência dela. Como em “Girls”, a série não foge do sexo e toca no tema da positividade corporal desafiando padrões, mas gostei especialmente quando ela afirma que “Too Much” não é sobre o corpo de Jess, e sim sobre sua história.
Quando “Girls” surgiu em 2012, a série sacudiu quase tudo que conhecíamos de TV voltada ao público feminino - especialmente para quem viveu o auge de “Sex and the City”, que envelheceu mal, enquanto “Girls” tem sido resgatada pela geração Z e voltou a bombar.
Ao ler a entrevista e as críticas e pensando no que eu mesma esperava, percebo que esperávamos que Lena trouxesse outra ‘bomba’, algo capaz de sacudir valores e hábitos. E acho que “Too Much” faz um pouco isso, mas de maneira sutil (o incômodo que as pessoas têm com Jess e seu corpo está aí para provar), mas sem a mesma pretensão - e isso ela deixa claro na entrevista. A decepção da crítica parece muito mais sobre expectativas projetadas na Lena de 10 anos atrás, quando ela é uma pessoa diferente da que criou “Girls”. Ela mesma diz na entrevista que tudo que ela quer hoje é fazer comédias românticas e “Too Much” não deixa de ser uma.
E deixo aqui uma frase dela sobre sua mudança para Londres que caiu como uma luva e me trouxe bons insights:
“Há algo muito mágico — mesmo quando é solitário — em descobrir quem você é num lugar diferente.”
Running to the Sea
📺 Eu estava ocupada demais em 2013 - ou seja, casando - e perdi “A Grande Beleza”, do Paolo Sorrentino, mas finalmente assisti. Uau! Que obra prima! E nela encontrei uma das cenas mais arrebatadoras do cinema: a festa de aniversário de Jep Gabardella. Ali, a vida transborda - ruidosa, excessiva, bela e triste. Que lindeza! Um filme que começa desta maneira, não decepciona. Acabei pensando o quanto o tema ‘dança’ anda presente na minha vida (ou estou mais atenta a isso) desde que escrevi sobre dançar como ato de resistência.
🏛️ Visitei o Hamburger Bahnhof, meu museu favorito em Berlim, e revi a obra “Phase Shifting Index, 2020,” de Jeremy Shaw, obra imersiva audiovisual que explora grupos que usam dança e rituais para criar realidades paralelas, até que tudo se junta numa grande dança coletiva e, no auge, as imagens explodem em efeitos caóticos e hipnotizantes. É catártico e também dialoga com o texto da dança. Deixo aqui uma entrevista com o Shaw (em inglês).
📚 Estou lendo “Faca: Reflexões de um atentado”, do Salman Rushdie, livro em que ele conta como foi sobreviver ao ataque que sofreu em 2022. Não é só o relato do atentado, mas também sobre trauma, medo, a recuperação e o que significa seguir em frente depois de quase morrer.
👧🏻 Quem tem filhos da geração Alfa concorda com este relatório? Eu espero que sim.
👩🏻💻 CC50 é um curso de ciência da computação da Harvard super bem cotado. Agora está disponível também em português e de graça. É bem puxado e para quem está afim mesmo de estudar o assunto.
🎧 “Juggling Dualities”, da rRoxymore, foi lançado hoje e traz uma trilha perfeita para desacelerar, respirar e lembrar que tudo passa.
🧺 Para quem está em Berlim: Estou promovendo um picnic literário em português no próximo dia 29.07, com a Aline Valek e a Isabelle Bedê, do Späti Stories. Será no Mauerpark, em Berlim, fim do dia. Se estiver em Berlim, cola lá! É de graça - só fazer o RSVP aqui. E, na próxima terça-feira (22.08), estou participando de um Book Swap Picnic, também em Berlim, esse em inglês.
💬 Entrevistei a Raquel Fedato, uma brasileira por trás do festival queer WHOLE, que rola neste fim de semana - e espero estar lá, e da Pornceptual, uma festa focada em sexo positivo.
📩 3 newsletters que adoro acompanhar: Boa Noite Internet, a Vagarosa da Verbena Cartaxo e a Fotos dos Outros.
✔ A Nike fez uma bela estreia com sua newsletter “In the Margins”, também no Substack. Adoro marca que saber ser discreta.
Por hoje é só. Mande boas energias para mim.
Lalai




Sempre que leio seus textos penso em mudar para Berlim :).
Melhoras...
Melhoras, Lalai. Vou insistir em Too Much.