Espiral: As escolhas que fazemos
5 anos de Espiral, mudanças, passado, presente e futuro tudo junto e misturado
Trilha sonora para esta edição: “Great Doubt”, de Astrid Sonne
A Espiral fez cinco anos em março e eu esqueci de celebrar. Essa newsletter foi gestada durante alguns anos com a ideia de compartilhar coisas bacanas que eu via nas minhas viagens pelo mundo, mas que não cabiam em textos no meu site Chicken or Pasta. Porém, estar na estrada quase o tempo todo não permitiu que ela nascesse. Curiosamente, ela veio ao mundo justamente quando parei pela primeira vez na pandemia. Não tinha o que mostrar, porque estava trancada em casa, então ela veio para me salvar da solidão e do tédio. Comecei a compartilhar as coisas boas que a internet foi capaz de proporcionar na época e foram muitas. A pandemia acabou e eu comecei a mostrar Berlim. Aos trancos e barrancos, cheguei aqui. Cinco anos depois, ela segue solta, saindo no tempo dela e no meu, sem um script pronto como já tentei ter.
Obrigada para vocês que me leem e me acompanham. ♡
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Um amigo me mandou um texto sobre “decisões eróticas”, que não tem a ver com sexo, e sim sobre o desejo como força de ruptura, que desarruma mais a vida do que a cama. A leitura me tirou do prumo e, ao mesmo tempo, me trouxe alento acerca das escolhas que venho fazendo nos últimos anos, que nem sempre pareceram inteligentes.
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Recentemente, conversando com outro amigo, comentei que talvez eu vá para São Paulo em breve por causa de um projeto, mas estava em dúvida porque a data coincide com uma viagem que estava planejando para o festival Sónar, em Barcelona
Ele respondeu dizendo que eu deveria ir para São Paulo, pois assim eu teria a chance de me reconectar com a antiga Lalai, aquela super produtiva, cheia de energia.
Revirei os olhos. Ele falava sobre uma versão minha que funcionava quase em tempo integral, que só não era vinte e quatro por sete porque eu dormia, mas era quase isso. Eu era a rainha da produtividade e vivia ouvindo das pessoas: “invejo sua habilidade de fazer tantas coisas diferentes ao mesmo tempo”. Eu ficava orgulhosa.
Respondia a tudo, entregava tudo, dizia “sim” até para coisas que eu nem lembrava de ter aceitado ou que queria fazer. Não por amor à produtividade, mas porque era o ritmo pelo qual estava acostumada, uma vida colocada em piloto automático.
Eu era feliz (e sabia), reclamava pouco, estava sempre sorrindo, tinha uma energia surreal e estava sempre fazendo planos, mas pensar agora em reencontrar esse ‘eu’ que deixei para trás me causa cansaço. Deixa ela lá!
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Me mudei para Berlim entrando em campo no segundo tempo, aos 45 anos. Agora, aos 51, eu me pergunto com certa frequência: será que fiz a escolha certa? Será que essa mudança foi um salto de crescimento ou uma fuga? O que me trouxe para esse país que tem essa língua desgraçada que eu não consigo aprender?
Berlim trouxe mais perguntas do que respostas, me fez ficar cara a cara comigo mais tempo do que eu gostaria e exigiu que eu aprendesse a parar. Não como alguém que tira férias, mas como quem perde o chão e precisa inventar um novo jeito de andar. Demorou, mas finalmente estou em pé.
No começo, tive que lidar com uma agenda social vazia, que me causou estranhamento e me fez sentir solitária muitas vezes. Mas foi nesse novo momento em que me vi, que comecei a repetir: “Lalai, dá para viver de outro jeito.”
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Cheguei em Berlim cheia de justificativas, inclusive de que a cidade seria uma base estratégica para seguir viajando, que eu precisava de novos ares, que era hora de mudar de cenário e realizar o sonho de viver no ‘estrangeiro’. Hoje percebo que o que me trouxe até aqui, no fundo, foi uma inquietação que crescia pelas bordas. Ja derramava. Quando me dei conta, estava na capital alemã com doze malas, um apartamento vazio e a sensação de que talvez eu tivesse me largado no meio do caminho e esquecido de avisar a mim mesma (e ao meu marido).
No começo, tentei repetir o velho roteiro. Criar conexões, emplacar projetos, estar visível. Mas nada rolava direito. A engrenagem não girava mais com a mesma facilidade.
Berlim, com seus invernos longos e a burocracia kafkiana do dia a dia, não é uma cidade fácil. Fui obrigada a aprender a ficar em silêncio, aceitar não saber, a deixar ser cuidada, a pensar no futuro e a estar mais presente. Inclusive, praticar presença se traduziu no amor que descobri pela cozinha. Adoro me perder entre o fogão e a pia enquanto arrisco receitas difíceis ou invento as minhas próprias. Aos fundos, uma boa trilha sonora e eu ali, presente de um jeito espantoso. Sem planos, sem ter para onde ir e, pela primeira vez, sem me preocupar com isso.
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Outro dia revirando meus arquivos, encontrei uma entrevista que dei sobre reinvenção. Ela nunca foi publicada, mas reler a conversa me chocou um pouco. Eu falava como se soubesse tudo sobre o assunto, como se existisse um jeito certo de fazer, como se mudar de caminho fosse um plano bem executado. Como eu era pretensiosa! Mas olhando agora, vejo que a maior parte das minhas decisões não foi racional, foram respostas mal traduzidas a desconfortos que eu não entendia e impulsos que acabaram virando meta.
A verdade é que eu nunca fui boa em seguir padrões. A estabilidade sempre me entediou, o conforto me incomodava, então volta e meia eu resolvia deixar algo que parecia seguro para me arriscar em coisas novas. Faz quase quinze anos que não sei o que é trabalhar para alguém que não seja eu. Sei que é um privilégio poder mudar de rumo. Eu tive tempo, recursos e rede de apoio, mas nem sempre foi assim. E, ter esse espaço não significa saber o que fazer com ele.
Desde que cheguei aqui em 2019, eu patinei um bocado e essa newsletter tem a prova disso. Caí, quebrei a cara, fiquei desolada como nunca antes na vida. Insisti em me encaixar em versões de mim que já não faziam sentido. Demorei até entender que o lugar onde fomos felizes um dia não é necessariamente o lugar para onde devemos voltar.
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Hoje, me sinto menos preocupada em parecer estar certa. Tem dias que penso em fugir de novo, trocar de cidade, de idioma, de rotina ou até mesmo em voltar para o Brasil. Porém, essa vontade tem perdido cada vez mais a força. Não porque eu tenha me iluminado, mas porque as coisas estão começando a se encaixar, a fazer sentido e a seguir um rumo que me empolga. Tem sido devagar, mas esse novo ritmo começa e me deixar satisfeita.
Bom, sou geminiana demais para afirmar que é assim que quero a coisas daqui para frente, mas no momento é o que quero. Sei que posso mudar de ideia e está tudo bem também.
No fim das contas, gosto de ter escolhido Berlim para me estacionar. Aprendi na marra que ficar parada não significa estagnar. Às vezes, significa simplesmente fazer planos que talvez rolem, mas não vão resolver a minha vida. Depois de uma longa fase turva, o sol começa a entrar pela janela.
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Não sei se vou a São Paulo em breve ou ao Sónar. Talvez eu decida em cima da hora, talvez não decida e deixo a vida resolver por mim como fiz tantas vezes. Talvez eu vá.
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Cinco anos de Espiral, praticamente uma terapia coletiva onde mergulho no meu umbigo, divido as minhas dores e alegrias, mostro um pouco do meu mundo, compartilho a arte e a música que me salvam todos os dias.
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Depois de ler e reler o texto sobre decisões eróticas, concluí que ele foi, provavelmente, escrito quase todo por uma inteligência artificial. Acho até que a própria Tamara sequer exista. É curioso pensar que até pouco tempo discutíamos que a IA não seria capaz de nos emocionar ou de ser criativa, mas aqui estou mordendo a língua.
Exploro então as partes do texto que me tocaram. Gostei de onde me vi nele, como perceber que ouvir nosso desejo é muitas vezes um convite arriscado, porque exige disponibilidade para falhar. Eu já tive pânico de falhar, mesmo tendo passado a vida me arriscando. Ter ouvido meu desejo tantas vezes foi o que me trouxe até aqui: manteve minha vida mais habitada, menos gerida e menos editada. Me fez também realizar um plano antigo que jamais achei que sairia do papel, morar em Berlim.
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Bom, agora pausa para os comerciais porque tenho um momento jabá: A Senda, meu novo negócio com o Guima desde 2023, entregou um projeto recentemente em Nova York e em breve entregaremos outro em São Paulo.
Levamos algum tempo para entender o ‘core’ da Senda, mas é isso: traduzimos conceitos técnicos e complexos em experiências lúdicas, criamos ‘team building’ e viagens de inovação.
Chemistry
📚 Lendo durante o dia “Sobre a liberdade: Quatro canções sobre cuidado e repressão”, da Maggie Nelson;
📖 Lendo durante a noite “Adeus a Berlim”, de Christopher Isherwood;
🎙️ Na fila para ouvir: “What AI Can’t Replace with Nicholas Thompson”, no podcast “Beyond the Prompt - How to Use AI in your Company” (The Atlantic);
🎧 Ouvindo essa lista de artistas que exploram ‘o mundo da batida’;
🧴 Ando bem interessada no mundo da beleza e, recentemente, cheguei neste ótimo report feito pela consultoria brasileira “Inside Beauty”;
🧠 Dois festivais de inovação e criatividade na minha mira: House of Beautiful Business, feito por uma galera de Berlim e que está neste momento acontecendo no Marrocos, e o Forward, que rola aqui em agosto;
🇯🇵 Adoraria ir também à Expo, em Osaka (Japão). Neste vídeo é possível visitar pavilhões de 50 países - ótima referência para quem trabalha com ativação de marca;
🎬 Estou com uma longa lista de filmes que quero assistir: “A Presença”, do Steven Soderbergh; o documentário “Ney à Flor da Pele”, de Felipe Nepomuceno; “The History of Sound”, de Oliver Hermanus, e “The Chronology of Water”, estreia da Kristen Stewart como diretora; e “RAVENS”, de Mark Gill;
⚡️ A Paula Maria me indicou este ótimo texto: O uso do erótico como poder, da Audre Lorde - esse não foi escrito por IA, pode confiar;
🔴 Esperando o ‘play’: Marina Abramović sobre o clímax da arte e o poder de um terno Yamamoto;
😈 Golpes Amorosos, os Yahoo! Boys, da Nigéria.
Boa semana… e agora com os dias bonitos e quentes (com exceção de hoje), eu votarei a falar mais sobre Berlim e coisas interessantes que vejo por aqui, porque sei que já falei o suficiente sobre mim. Nos vemos em breve.



Que texto rico! Dá pra sentir a vida pulsando entre escolhas, tropeços e descobertas. É inspirador ver como você transforma inquietação em aprendizado e presença.
Podemos dizer que no positivo e no negativo, você inspira. Pessoa real, com uma idade real de alguém vivendo suas verdades. Me faz reforça o que já sei: que sempre há tempo.