Espiral: Cartografia da fragilidade
Quando o tempo se torna viscoso
Trilha sonora: Liminal, Brian Eno - Beatie Wolfe
“A doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiram usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como cidadão do outro país.” - Susan Sontag, A doença como metáfora da vida
São seis dias dentro desta UTI no Belém, em São Paulo. O hospital tem três estrelas no Google, nota que não prometia, mas não decepcionou. Descobri que “mediano” é uma palavra elástica quando se trata de cuidar de quem amamos.
Minha cama é uma poltrona azul bebê que imita, sem sucesso, o conforto de uma classe executiva. O ar-condicionado trabalha no máximo, a luz branca persiste mesmo à noite – ela escapa da área dos enfermeiros e invade nosso espaço, nos recusando escuridão. Sorte que máscara para os olhos é algo que sempre tenho na bolsa. A TV de algum paciente insone fica ligada até tarde. Somos seis aqui numa UTI improvisada, porque a oficial está em reforma: cinco pacientes e eu. Um deles é meu pai, que infartou na semana passada e me fez atravessar o Atlântico às pressas.
Contra o bip metronômico do monitor multiparamétrico onde acompanhamos a pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio, respiração e temperatura, eu me armo com fones de ouvido maiores que a minha cabeça. Duas trilhas sonoras em rotação noturna: Sigur Rós: SLEEP, e sleeping with brian eno. Elas cumprem o que prometem. Meu corpo aos poucos cede à poltrona dura, os pés lutam para permanecer quentes sob o cobertor azul de tecido cansado e eu me movo lentamente para outro lugar.
Na madrugada, meu pai me cutuca. Sussurra que não consegue dormir. Os olhos dele imploram. Já sei o que ele quer, então consigo o remédio para que, assim como eu, ele consiga descansar.
Berlim no momento parece simultaneamente próxima e inalcançável. Talvez eu devesse pensar na possibilidade de voltar para São Paulo? Penso no meu marido, num bom momento de carreira. As montanhas que ama escalar no inverno, o mar revolto ideal para o windsurf – tudo finalmente ao alcance depois de onze anos morando em São Paulo comigo. Penso nos meus pais envelhecendo enquanto construo a vida em outro continente. Essa divisão não tem solução fácil, apenas o peso constante de estar sempre faltando em algum lugar.
Curiosamente, na segunda-feira da semana passada, enquanto estendia roupas na minha casa em Berlim, um bando de pássaros barulhentos chamou minha atenção. Parei para vê-los dançar no céu, essa coreografia que sempre me fascina, acompanhada de cantos que parecem sempre anunciar que algo vai acontecer. A imagem do meu pai surgiu então, junto com um incômodo que a razão tentou disfarçar. No parapeito havia uma joaninha, aquelas que minha amiga associa à irmã falecida, que também era minha amiga. Senti um arrepio e liguei. Estavam bem. Fiquei tranquila.
A ligação veio na terça-feira de manhã. Estranhei, afinal minha mãe não liga, sou eu quem telefona várias vezes por semana. Ela sorriu na tela, calma demais. Contou que meu pai passou mal de madrugada, que meu sobrinho o levara ao pronto-socorro, que estavam todos esperando notícias desde então.
Agora, habito temporariamente esta UTI onde nunca tinha entrado antes. Conheço todos os enfermeiros, reconheço os médicos de plantão, criei simpatia por alguns pacientes. Sou a única acompanhante, um privilégio exclusivo para idosos.
Minha irmã ficou com ele os primeiros quatro dias, alternamos por um dia, mas preferi assumir o posto integral. Eu, sempre ocupada, descobri que quando preciso, tenho tempo sobrando. Não sei ainda o que farei com ele.
Tentei ser produtiva até neste momento, mas quem é produtiva numa UTI além dos que trabalham aqui? Me matriculei num curso de muitas horas, trouxe livros que aguardavam a leitura ao lado da cama. Mas me entreguei, sem resistência, a uma maratona da série adolescente “Eu Nunca...”. Nem a literatura, minha velha cúmplice de fugas, conseguiu me sequestrar para outro mundo. Talvez porque neste momento seja exatamente aqui que eu queira estar.
São tantas histórias em tão poucos dias. Certa madrugada, uma senhora muito idosa começou a gritar ao lado: “Me tirem daqui, socorro, eu vou morrer”. Repetiu até o corpo ceder ao sono. Continuamos todos respirando no escuro incompleto. Num outro dia, quis abraçar um rapaz que chorava ao ver a mãe desacordada após um AVC. Em vários momentos, quis ser abraçada enquanto corria para chorar no banheiro. Uma senhorinha pediu que a ajudasse a reinstalar o WhatsApp enquanto me contava animada sobre sua filha que mora em Londres.
Hoje é quinta-feira. Meu pai está neste mesmo quarto há dez dias e torcemos para que seja o último. Ele se recupera bem, mas ontem uma febre traiu o cronograma, esticando a estadia até termos certeza de que pode ir para o quarto comum e, finalmente, para casa.
Estar aqui me colocou frente à frente com nossa humanidade descascada. Todos tão frágeis enrolados nas camisolas brancas de flores minúsculas verdes. O xixi feito na cama, às vezes o banho também. A comida sem sal, os furos de agulha espalhados pelo corpo, a dentadura que precisa ser escovada. O ser humano totalmente despido. Vaidade e ego desaparecem. Resta apenas a vontade de sair dessa. De sobreviver. De voltar para casa.
Para o hospital, dou nota melhor que a do Google. Não tenho o que reclamar de todo o tratamento, tanto do corpo médico quanto dos enfermeiros. Desconfiando mesmo assim, consultei um cardiologista de fora só para ele me confortar. Ele disse “seu pai está em boas mãos, os laudos são primorosos, o tratamento segue exatamente como deve ser”.
Respiro aliviada, ainda que ao meu lado ele seja uma figura frágil como nunca vi antes – ele, que sempre foi meu super-herói.
Hoje não me estenderei compartilhando referências, porque elas me escapam no momento. Sigo entre o atordoamento e a vigilância, a tristeza e a alegria. Volto em breve.



Esses tempos li "Humanos Exemplares", da Juliana Leite, e fiquei com um baita aperto no peito pensando nos meus pais envelhecendo do outro lado do Oceano. É muito dolorido quando algo mais preocupante acontece e a gente não tem como se enfiar num ônibus ou num avião para estar por perto em menos de oito horas. Mas fico feliz que seu pai esteja bem e que você esteja ao lado dele neste momento. Fico na torcida por uma recuperação rápida, muuita força pra ti e para sua família <3
Oi, Lalai. Primeiramente desejo uma boa recuperação ao seu pai. Em segundo lugar, adorei seu texto. Eu estou sempre do outro lado: eu trabalho na uti. E a dinâmica de estar sempre ali, algumas vezes na semana de plantão, meio que despersonaliza a gente com relação à doença. A gente não acha que vai acontecer com a gente nunca ou acha que vai ser mais fácil porque já conhecemos e na verdade não é nada disso. Ler seu texto me trouxe de volta pra humanização e para a fragilidade que as pessoas vivem nesse estado de paciente e acompanhante. Isso me deu muita coisa pra pensar. Fica bem ❤️