Espiral: Clubbing, democracia e o futuro da pista
Quando dançar juntos é também imaginar novas formas de viver
Trilha sonora para esta edição: “To Close your Eyes and See the Fire”, HVOB

Vi uma conversa da jornalista Liz Plan com a Priya Parker se clubbing pode salvar a democracia. Para elas, a pista é um ensaio democrático: no club, aceitamos regras mínimas para viver juntos a sensação de liberdade, o risco e o inesperado. É um contrato social implícito que só funciona porque aceitamos o risco de estar próximos, mesmo sem garantias, compartilhando o mesmo espaço e o corpo suado. Como recompensa, sentimos pertencimento, nos divertimos e, às vezes, até transcendemos.
O paralelo me chamou atenção: clubbing funciona como democracia. Precisa do atrito, o choque inevitável entre mundos diferentes, e da serendipidade, os acasos que mudam uma noite inteira. Sem desconforto não há intimidade, sem erro não há memória. Hoje, com tantos atalhos e algoritmos que decidem por nós, acabamos afastados do espontâneo, das pequenas travessuras do encontro. É justamente nesses instantes simples, quando alguém puxa papo na fila do banheiro, no esbarrão na pista ou na espera no bar, que nascem laços inesperados.
Sem a pista, deixamos de ter um território comum, uma extensão de território onde pertenço e que me permite ser parte de algo maior. Isso aparece na política também: dizem que quem parece saber organizar “a melhor festa” hoje é o MAGA, com música, símbolos, identidade e a promessa de comunidade. Já os progressistas muitas vezes soam exaustos, sérios demais, paralisados pelo medo de cancelamento.
A luta ultrapassa palavras e ideias. É sobre quem consegue criar a festa onde as pessoas querem entrar.
Muita gente ainda me vê como “baladeira”. Basta sair uma matéria sobre o fim da noite que me marcam. A verdade é que estou cansada. Hoje prefiro o dia à noite e só encaro uma festa se quero ver alguém especial tocando - de preferência durante o dia. Mesmo assim, é na pista encontro espaço para ser mais eu mesma, onde me renovo e encontro novo ânimo.
Recentemente o NYTimes publicou uma reportagem questionando se as festas estão mortas ou se apenas estamos ficando velhos demais para acompanhá-las. A jornalista visitou mais de vinte bares e clubs em Nova York e encontrou uma juventude que não abandonou a pista. Só reinventou.
A Geração Z bebe menos, prefere drinks leves, mas continua querendo se encontrar. Novos formatos surgem: soft-clubbing em cafés, wine raves, festas sem álcool, leituras que viram festa, jantares que atravessam a madrugada. Não é o fim, mas um novo jeito de festejar.
Em Berlim, a história é mais ambígua. As pistas continuam cheias, mas a conta não fecha. Aluguel e energia disparam, contratos caducam, e o bar fatura menos quando o público bebe pouco. Watergate se despediu no último réveillon; o Renate tem data marcada para fechar; o SchwuZ, club queer mais antigo da cidade, corre risco real. A noite continua vibrando, mas os espaços que a sustentam encolhem sob pressão de aluguel, energia e especulação.
O futuro da noite em Berlim aponta mais para adaptação e luta para continuar do que para um apagão. Mesmo com os problemas, a força cultural da cena ainda segura a pista. Talvez não mais a “Berlim selvagem dos anos 2000”, e sim uma Berlim adaptada, híbrida, às vezes formalizada, às vezes clandestina.
Se a pista é ensaio de democracia, o que está em jogo não é só diversão. É garantir lugares para encontros, diferenças e surpresas.
Priya Parker diz que a democracia só continua se apoiada em rituais coletivos. O NYTimes mostra que a juventude segue reinventando esses rituais, enquanto Berlim alerta que eles estão sob ameaça real.
Geração Z & Nightlife
Tenho visto textos e posts no Instagram dizendo que a Geração Z não se interessa pela noite. Mas pesquisas mostram que o principal fator que a afasta da pista é econômico. As mudanças culturais existem, mas são secundárias: essa geração bebe menos, prefere experiências híbridas, formatos criativos e eventos diurnos.
Morando em Berlim e produzindo um guia cultural semanal, percebo a cena um pouco diferente do que leio em alguns títulos alarmistas que leio.
68% dos jovens britânicos responderam que a situação econômica os fez sair menos à noite; 53% gastam menos quando saem. (NTIA, 2025)
Quase metade dos clubs de Berlim consideram fechar nos próximos 12 meses; 55% relatam queda nas vendas apesar das pistas continuarem cheias. (The Berliner - Clubsterben Report)
Geração Z não abandonou a noite, mas a está transformando: menos álcool, mais eventos híbridos e experiências que unem cultura, bem-estar e diversão. (GDR Creative Intelligence, 2023).
Deixei de fora capitais globais da noite como São Paulo, Bogotá, Cidade do México, Lagos, Seoul, etc. O foco desta edição era a conversa de Priya Parker e o artigo do NYT, mas acabei me estendendo. Gosto especialmente da conexão entre clubbing e democracia, que dialoga com meu texto sobre “Dançar como ato de resistência”.
Uma curiosidade: claro que na Alemanha temos uma palavra para traduzir a morte dos clubs: Clubsterben.
Adversity & Hope
✈️ As viagens mais bonitas do mundo;
🧠 Talvez a idade em que pensamos melhor não seja a que imaginamos;
🎧 Dream of Snakes, Lila Tirando a Violeta;
📚 Lendo “O Desabamento”, de Edouard Louis (devorando na real), e “Kairos”, de Jenny Erpenbeck (recomendo para todas as pessoas apaixonadas por Berlim);
🎙️ Coisa de Rico, do Michel Alcoforado, está dando o que falar no Brasil e virou best-seller após duas semanas de lançamento. Ouvir este episódio me fez entender o hype;
🎬 Lista de filme curada pelo Wim Wenders. Assisti a tragicomédia “A Lenda de Paul e Paula”, filmado na Berlim Oriental nos anos 70. Da mesma lista, recomendo o doc “LOVE, DEUTSCHMARKS AND DEATH” sobre cena musical turca na Alemanha.
Deixo duas antigas edições da Espiral que dialogam com meu texto de hoje:
Bom fim de semana. :)
Lalai



Ai que saudade da Torre e do Astronete!
Vendo as pessoas festejando a prisão de Bolsonaro com um grande carnaval, faz todo sentido que festejar (num clube ou na rua) é um exercício de democracia.