Espiral: Deslumbramento
Férias na Toscana e um mini-guia para viajar pela região
Trilha sonora para essa edição: “Quiet Pieces”, do produtor italiano Abul Mogard (alter ego do Guido Zen).
Fazia tempo que eu não escrevia sobre viagens, mas a Toscana reacendeu esse hábito adormecido. Estou enferrujada, é verdade, mas deixo aqui algumas impressões e pistas de uma das regiões mais bonitas da Itália.
“Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio - com toda a sua empolgação e seus paradoxos - quanto o ato de viajar.” - A arte de viajar, Alain de Botton.
Em 1817, o escritor francês Stendhal chegou a Florença e saiu atordoado: diante de tanta arte e beleza, teve palpitações, tontura e achou que ia desmaiar. A experiência foi tão intensa que virou diagnóstico: a Síndrome de Stendhal, reação psicossomática diante do excesso de beleza. Dois séculos depois, pisei na mesma cidade, em pleno agosto, e me perguntei se não sucumbiria ao mesmo feitiço.
Após um plano frustrado de viagem à Escandinávia, fui comemorar o aniversário de uma amiga na Toscana em pleno agosto. Eu e meu marido embarcamos alguns dias antes para conhecer Florença, cidade que estava na minha lista há tempos. Depois de anos evitando destinos óbvios, render-me à capital do Renascimento no auge do verão foi incoerente, mas irresistível.
Cheguei com o calor me dando voadora de trinta e oito graus. Segui para o hotel em busca de banho e sombra, enquanto via a multidão mastigando a cidade e transformando cada esquina em cenário para as redes sociais, o que eu também faria mais tarde.
Para sobreviver, criei uma rotina simples: sair cedo, caminhar, almoçar em restaurantes com ar-condicionado, cochilar, tomar banho e recomeçar o passeio no fim da tarde, quando a cidade ainda derretia - afinal a noite caía só depois das dez da noite.
Entre uma batida de leque e outra, passei dias caçando frescor: igrejas, museus, cafés e lojas. Me rendi às perfumarias espalhadas pela cidade - a Santa Maria Novella é um túnel do tempo que vende fragrâncias desde o século XVI, enquanto a Aquaflor e a Perfumoir Firenze oferecem aromas mais contemporâneos não ficam para trás em suas instalações.
Descobri uma livraria cinematográfica instalada num antigo Odeon e, mesmo não sendo fã de sorvete, me entreguei diariamente sem culpa ao gelato.




Houve os momentos esperados: ver o pôr do sol do alto da Piazza Michelangelo e a lua cheia nascendo atrás da Ponte Vecchio - e, no coração da cidade, contemplei várias vezes a fachada do Duomo, talvez a mais bonita que já vi numa igreja. Talvez seja o que Rick Rubin chama de “sintonizar-se com momentos de espanto”, aquela rendição consciente ao extraordinário disfarçado de comum.
Apesar da beleza monumental do centro histórico, foi em Oltrarno onde me senti mais à vontade: bairro boêmio e jovem, onde ruas medievais convivem com palácios, igrejas barrocas e ateliês. Trattorias, bares e mercados criam uma atmosfera local que contrasta com a cena turística abarrotada do outro lado do rio.
Mas até Oltrarno vive sob pressão. Florença perdeu mais de 12 mil residentes na última década, expulsos pelo alto custo de vida e pela falta de moradia no centro. Kamin Mohammadi, que se apaixonou pela cidade em 2008 e escreveu um livro sobre isso, desistiu: “O centro foi esvaziado de vida local, comércios e artesãos.” Voltou anos depois e encontrou apenas turistas e marcas globais - “Dolce Vita Land”, como ela definiu.
Era difícil não pensar nisso também ao procurar restaurantes: muitos estavam fechados de férias, enquanto outros pareciam voltados só para turistas. Elegemos a bisteca florentina do Antico Ristoro di Cambi como a melhor, enquanto o Floret, instalado no Palazzo San Niccolò, nos salvou com fibras e leveza após dias de muito carboidrato.
Passei horas na Galeria Uffizi, prédio de 1581 de beleza tão extraordinária quanto a coleção que abriga. É lá que encontramos a maior amostra da arte renascentista, de Giotto a Rafael. Entre as salas, o olhar saltava arregalado de um século a outro.
Numa das últimas salas do museu, a dinâmica do olhar escancara ainda mais séculos de desigualdade: multidões se aglomeram hipnotizadas diante da "Medusa" de Caravaggio, enquanto poucos metros adiante, a "Judite Decapitando Holofernes" de Artemisia Gentileschi, obra tecnicamente superior e mais potente, fica quase ignorada. Artemisia pintou Judite com a força de quem conhecia violência, transformando vingança em arte. Mas ela é apenas uma gota no oceano masculino que domina o Uffizi.
Já o interior da Toscana é exatamente como imaginamos: campos de girassóis a perder de vista, ciprestes marcando propriedades, colinas sucessivas, vilarejos medievais e luz dourada. Tudo como nos cartões-postais, e ainda assim impossível de não se deslumbrar.
Entre o excesso das cidades e a serenidade do campo, a Toscana mostrou a necessidade de pausas e confirmou que meu próprio tempo só existe quando escolho menos: o eigenzeit, o tempo que não cabe no relógio. Aprendi a gostar desse tempo inventado mesmo antes de saber que tinha nome e foi ele que levei comigo para esta viagem.
Voltei encantada, arrebatada por uma beleza que desafia listas ou fotos e desarma a gente pelo excesso. Talvez seja isso a tal Síndrome de Stendhal: quando o olhar se perde e o corpo só consegue se entregar, às vezes a ponto de desmaiar.
Meu caminho na Toscana
Abaixo alguns destaques da minha viagem. Todos os lugares se encontram também neste mapa:
Uffizi Galleries: Casa das famosas obras “O Nascimento de Vênus” e “A Primavera”, ambas de Botticelli; “A Anunciação”, de Leonardo da Vinci e Andrea del Verrocchio; “Judite decapitando Holofernes”, de Artemisia Gentileschi, entre tantas outras. Além de tudo, o palazzo é magnífico. Vá com tempo e tênis confortáveis.
Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella: Considerada a perfumaria mais antiga do mundo, funciona no mesmo lugar desde sua fundação em 1612. Teve a Catarina de Medici como cliente. Ignore a fila e vá, beleza interior faz valer a pena a espera.
Aquaflor Firenze: Perfumaria de luxo num palácio histórico de Santa Croce, com coleções próprias de fragrâncias, velas e cosméticos. Ao lado dela tem a Aqua Decor que vale a pena visitar também.
Profumoir Firenze: Funciona como olfattoteca, com criação de perfumes sob medida, workshops e cerimônias do incenso, liderados pelo perfumista Sileno Cheloni, que foi o master perfumer da Aquaflor.
Giunti Odeon: Livraria instalada num antigo cinema, mantém as poltronas do andar superior, passa filme no telão durante o dia todo e é de tirar o fôlego quanto tudo em Florença.
Basílica do Espírito Santo a fachada é simples, mas o interior é luxuoso com uma boa coleção de arte e o altar barroco. Nela se encontra o crucifixo esculpido em madeira atribuído ao ainda jovem Michelangelo como sendo uma de suas primeiras obras. A praça em frente à igreja é o pit stop jovem de Florença. É cercado por bares e cafés. Dica: Tomar um Spritz no terraço do Volume.
Gelateria Della Passera onde tomei um dos melhores gelatos da viagem.
The Antico Ristoro di Cambi para compartilhar uma bisteca florentina ou uma boa massa se assim preferir (recomendo a com trufas).
Branzo (Pisa) é dedicado aos frutos do mar, serve massas e sanduíches saborosos, além de ter uma ótima carta de vinho.
Gelateria De' Coltelli (Pisa) provavelmente tem um dos melhores gelatos que tomei nesta viagem.
Ficou na lista de Florença e arredores para conhecer na próxima visita:
Bulli & Balene - Spritz e Cicchetti para um aperitivo.
Rasputin: Bar de coquetéis elaborados. Fica na rua detrás da praça Espírito Santo e foi bem indicado, mas não deu tempo de conhecer.
I’Brindellone: Restaurante sem firula, mas não conseguimos mesa.
Cidades que visitei que me surpreenderam entre a Toscana e a Umbria:
Siena, cidade medieval bem preservada, conhecida pela corrida de cavalos El Palio, o que levou a Madonna a celebrar seu aniversário lá, e a Piazza del Campo em forma de concha e a catedral gótica ricamente ornamentada são passeios imperdíveis. A cidade conta com nada menos do que 33 restaurantes listados no Guia Michelin.
San Quirico d'Orcia, comi muito bem no Ristorante Da Ciacco - listado no Guia Michelin, mas acessível - tomei um ótimo gelato no Golosi di Gelato e me surpreendi com as esculturas contemporâneas em Horti Leonini.
San Gimignano, linda, mas abarrotada de gente.
Assis, na Umbria, foi, no fim das contas, a cidade que mais me impressionou com sua beleza além de Florença. A Basílica de São Francisco de Assis é uma das mais bonitas que já vi por dentro.
Os melhores meses para visitar a Toscana são maio, junho, setembro e outubro. Fuja de lá em julho e agosto, não faça a desavisada como eu.








Que delícia de viagem e de texto. Obrigada por compartilhar. Moro na Itália há dois anos e meio e sempre me delicio com os relatos e olhares de quem visita as diferentes regiões do país. É sempre um lembrete para manter vivo o encantamento.
Li esta edição depois de assistir La Chimera, filme da italiana Alice Rohrwacher no interior da Toscana dos anos 80. Encontrei alguns pontos em comum, principalmente em relação ao olhar, que para mim diz muito sobre o viajar (e viver). E me deu mais vontade de voltar a Firenze para, desta vez, embrenhar-me pelo interior. Salvei aqui, Lalai, obrigada!