Espiral: Doze dias
Na UTI, o tempo não passa, até passar
Trilha sonora para esta edição: Oceanic Mirror, Eydís Evensen
Por que o meu pé direito está ali?
Porque ele tem que estar ali. Está no lugar correto.
Você vai me furar, vai doer. Não faça isso comigo. Socorro!
Pronto, já furei.
Devolva a minha roupa! Eu sei que vocês querem me matar!
Celeste tem noventa anos e mora numa casa de repouso. Desde que ocupou a cama ao lado do meu pai, não vi ninguém visitá-la. A pele é tão branca quanto os cabelos. Na primeira vez que a vi, olhava atônita para o teto sem piscar, e achei que estivesse morta, mas a tela ao lado mostrava seu coração batendo. Foi hospitalizada porque fraturou o fêmur, precisou operar e sentiu tanta dor, que deram morfina, não sei se para aplacá-la ou para acalmá-la. Agora ela grita frases sem sentido, negociando o tempo com a própria confusão.
Do outro lado, Dona Amélia repousa de boca aberta, distante e diferente de dois dias atrás. Noventa e nove anos. Os médicos desenganaram a paciente e instruíram a família a se despedir – daquela noite ela não passaria. Ela deve ser querida, porque a fila para vê-la era grande. Foi justamente essa noite que ela roubou meu sono e o de todos com gritos desesperados: “Me tirem daqui, socorro, eu vou morrer”.
Dois dias depois estava animada em videochamadas no celular. “Achei que ia morrer, mas continuo aqui”, gargalhava alto. Os cabelos pretos volumosos surpreendem com toda a lateral raspada, um coque no alto da cabeça. Agora lida com uma hemorragia que não conseguem conter. Dona Amélia voltou ao sono profundo. Quase não come mais. Não ouvimos mais as suas falas solitárias ecoando no vazio.
A UTI é especialmente cheia de idosos. Muitos casos de derrame e acidentes domésticos. A maioria dos pacientes fica uma média de três dias e se vai. Nós esticamos a temporada, aprendemos o nome de cada funcionário e eu já estava usando o microondas deles para esquentar minha marmita porque não aguento mais o café do hospital.
Esta noite não foi fácil para o meu pai. Passou o dia dormindo e a noite em claro. Pela manhã me contou que me cutucou duas vezes pedindo ajuda, mas eu não acordei. Simplesmente não acordei.
Toda aquela angústia de estar longe lidando com a culpa de ter construído vida em outro continente enquanto meus pais envelhecem. E quando finalmente estou aqui, durmo enquanto ele precisa de mim. Fiquei envergonhada.
Ele estava desanimado pela manhã, reclamando de dores. Temi que não o liberassem da UTI, que também parece adoecer as pessoas se elas passarem nela mais tempo do que o previsto.
Quando o Dr. Milton chegou sorridente, entendi o recado. Teríamos alta. Não demorou para nos mudarmos para um quarto agradável, com boas instalações, TV, armário para a minha malinha, frigobar, escrivaninha para trabalhar. Se tudo der certo, ficaremos no máximo por mais três dias.
As primeiras horas aqui, num silêncio tão grande que não cabia no quarto, me preocuparam. Senti falta do movimento em volta, do barulho. Curiosamente, aquele ambiente de plantão médico lutando contra a morte era cheio de vida. Aqui, onde estamos agora, sinto meus pensamentos assentando pela primeira vez desde que cheguei no Brasil. Doze dias.
O tempo não segue mais suspenso. Pela janela vejo a luz do dia e o anoitecer. Não ouço mais os bips que quase me enlouqueceram. É apenas o silêncio.
E no silêncio, finalmente, sinto o peso. A fragilidade do meu pai, agora pequeno nessa cama. Celeste sem visitas negociando com a morfina. Dona Amélia que driblou a morte rindo, talvez para ter tempo de se despedir. A solidão de não ter ninguém para conversar.
Há uma solidão particular em hospitais. Mesmo dividindo turnos com minha irmã, mesmo passando algumas tardes com a minha mãe e com alguns amigos que me visitaram, me senti isolada numa bolha de preocupação e terror. O alívio surge nas mensagens de amigos, nas conversas infinitas de grupos de WhatsApp que costumo ignorar, gente perguntando do meu pai, mandando força, simplesmente me lembrando que existe um mundo funcionando além deste hospital.
Ainda estou saindo do torpor destes longos doze dias. Descobrindo que cuidar de alguém também significa deixar ser cuidada. Que morar longe dói, mas afeto e amor não se medem em distância. Que às vezes, um “alô Lalai, você precisa de algo?” basta.
I See Red
📺 Me anestesiei assistindo as 4 temporadas de “Eu Nunca…”. Apesar de adolescente, achei a série perfeita como respiro nesses dias;
⚡️ Agora estou assistindo e adorando “Somebody somewhere” (HBO) - é muito apaixonante;
📚 Comprei 3 livros para levar na mala: Para John, Joan Didion; Ilhas, Nicolas Jaar; e Meu pai e suas apostas, Louise Meriwether;
📖 Comecei a ler “O livro do verão”, da Tove Jansson;
🎧 Ouvindo “Deadbeat”, novo álbum do Tame Impala, para alegrar meu dia;
👋 Estou migrando minha vida sonora de 17 anos com o Spotify para a Apple Music, pois não quero ajudar a financiar a guerra;
🏘️ A dor e a delícia da arte de conviver;
🧠 Olha quem está falando sozinha;
🗞️ Górgona, nova revista digital e gratuita com contos, poemas, colunas, entrevistas sob o tema ‘trauma’. Organização de Jarid Arraes.




Eu te entendo de um lugar que eu não queria.
Passei nesse ano quatro meses inteiros no hospital, de maio a junho eu fiquei um mês inteirinho morando no hospital. É indescritível essa situação. E mais ainda como me surpreendi comigo mesmo na capacidade de cuidar de quem eu mais amo. Força.
Sua escrita transmite com muita força a tensão e a fragilidade que se experimenta ao cuidar de alguém doente, especialmente quando há distância envolvida.