Espiral: O que os sonhos sabem sobre o futuro
Um manual do 'sonhário'
Trilha sonora para esta edição: The Magic Place, de Julianna Barwick. Dê play para amplificar a experiência da leitura do texto.
Antes de mergulhar no tema dos sonhos, temos um momento dos comerciais da Insider, patrocinadora desta edição da Espiral.
Sabe aquele sonho recorrente em que você está na rua e percebe que esqueceu de se vestir direito? Pois é. A roupa que a gente veste (ou não veste) nos sonhos diz muito sobre como a gente lida com ela acordado.

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Entra no WhatsApp da Insider para saber desses descontões em primeira mão e segue no @insiderstore.Os sonhos e o futuro
Acordo esbaforida com o coração disparado. Tento me segurar no sonho, mas ele escapa. Tateio a mesa de cabeceira atrás do moleskine. Não posso esquecer, não posso esquecer. Escrevo:
“Estou em Socotra, ilha no Iêmen. Um morro à minha frente onde aviões estão pousados de maneira improvisada. De dentro deles, pessoas são retiradas enroladas em cobertores e empilhadas onde tiver espaço. Muitas são idosas. Meu terror é vê-las morrer e não entender o que está acontecendo. Descubro que estão descartando as pessoas idosas do mundo e deixando-as ali para sucumbir.”
Coisa que a Remedios Varo pintaria - aquela aceitação do impossível como se fosse algo normal.
Comecei a anotar sonhos porque acordava achando que tinha entendido tudo, e em dois segundos a compreensão tinha sumido. Com o tempo, as histórias malucas foram criando padrões - obsessões que eu não admito ter quando estou acordada. São recados que meu cérebro manda em código.
Já vi o mundo acabar numa chuva de fuscas. Vi poltronas duras da classe econômica do avião se transformando em camas ótimas ao apertar um botão escondido. Já tomei café com alienígenas. A morte me buscou em casa num dia chuvoso e me fez tomar banho num lugar lamacento porque ninguém morre suja. No sonho, o impossível simplesmente acontece. Ninguém precisa explicar por que estava chovendo fuscas. Apenas chovia. E se a gente pudesse pensar no nosso futuro com essa mesma liberdade?
Os sonhos me fascinam com sua lógica invertida e situações impossíveis. Posso estar em São Paulo e em Berlim ao mesmo tempo. Posso ser criança e voar. Posso conversar com pessoas mortas e isso não causa estranhamento. A liberdade é bem radical, o oposto do que acontece quando tento imaginar o meu futuro acordada.
Quando penso em grandes mudanças como mudar de cidade, de vida, de carreira, de país, vem o maldito juiz interno gritando: “isso é impossível”, “você não tem dinheiro para isso”, “já passou da idade”, “e se não funcionar?”, “e se você se arrepender?”. Toda vontade precisa se justificar, enquanto nos sonhos, eu já estou vivendo vários futuros.
Sidarta Ribeiro trata os sonhos, em “O Oráculo da Noite”, como simuladores de futuros possíveis. Durante o sono, o cérebro pega fragmentos do dia - conversas, medos, imagens soltas, pessoas - e cria cenários que você não teve coragem de imaginar acordada. Não são restos aleatórios: são ensaios.
Tive um sonho que levou algum tempo para fazer sentido: a casa dos meus pais começou a ser tomada por raias estranhas, que brotavam do nada e se multiplicavam rápido demais. Eu tentava subir para o andar de cima, fechar as portas, criar algum limite, mas elas simplesmente avançavam, escorregando pelo chão. Uma delas grudou na minha perna e eu acordei gritando.

Levei semanas para sacar: a casa sou eu. A casa dos meus pais é a segurança e a estrutura, as raias que avançam são tudo o que não reconheço (ou não quero). Tento criar limites rígidos subindo para o outro andar, fechando as portas, mas as raias simplesmente escorregam. Elas são aquosas. Tudo que tento conter com um planejamento perfeito me escapa pelas mãos. A lógica demais não funciona por aqui. A raia que gruda na minha perna e me faz acordar gritando é tudo o que estou recusando. Minha mente avisa: você não vai ter o controle que quer ter sobre isso, vai ter que aprender a navegar de outro jeito. Se joga.
Quando releio os meus sonhos, eu noto obsessões que não admito ter. Sonho bastante com água, por exemplo: mar, rios, piscinas, enchentes. Comecei a sonhar muito com água quando me mudei para Berlim - primeiro eu me afogava, depois nadava em mares revoltos até que comecei a andar sobre a água. Fui do pânico à transcendência em alguns meses de sono REM.
Jung diria que é o inconsciente virando consciente, o ameaçador virando familiar. Talvez meus sonhos estivessem me treinando para morar em Berlim sem eu saber. Às vezes ainda me afogo.
Tem culturas que levam isso muito mais a sério do que a gente. Em “O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami”, a antropóloga Hanna Limulja mostra como, para os Yanomami, sonhar é buscar conhecimento, cuidar da comunidade e perceber os perigos. A noite yanomami é o “dia dos mortos”, e os sonhos são o momento em que as imagens (utupë) se desprendem do corpo e circulam pela floresta, encontrando outras imagens e outros desejos.
Gosto de pensar que faço uma versão urbana e solitária disso. Sigo acordando, tateando em busca do meu caderno para não deixar o sonho escapar. Então, anoto do jeito que vier com frases soltas. Aprendi a não tentar interpretar na hora, o sentido vem depois, às vezes semanas depois, quando releio e penso: eu já estava querendo isso, só não tinha coragem de admitir.
Foi na releitura que percebi os padrões. Foi assim que me dei conta da evolução que tive na água: do afogamento ao caminhar sobre ela.
Quando estou pronta para algo novo, sonho com as portas se abrindo, elevadores subindo e estradas que surgem do nada. O clube underground vazio vira escritório, a casa caindo e virando galeria de arte. Nada fica onde está.
O sonho em que “a morte me buscou em casa num dia chuvoso e me fez tomar banho num lugar lamacento porque ninguém morre suja” hoje me parece alquimia pura. O banho de lama era preparo: medo, transformação, purificação misturados. Foi uma espécie de recado: você vai precisar se sujar para mudar de vida. Não dá para renascer cheirosa sem antes encarar o lodo.
Os nossos sonhos vazam para o dia. Acordamos com a sensação do mundo estar ligeiramente deslocado, como se ainda estivéssemos com o pé do outro lado. São dias em que o futuro parece mais próximo, mais possível. Dias em que temos coragem de querer coisas que normalmente nos dariam medo.
Anotar sonhos é treinar a imaginar futuros sem um juiz interno gritando que é impossível. É lembrar que tem uma parte minha que sabe o que quer antes de pedir permissão. Que não precisa de plano nem de aprovação. Ela simplesmente quer. Nos sonhos, ela aparece.
Dreams
🎬 Assisti a “O homem dos Sonhos”, com o Nicolas Cage. A premissão é ótima e o filme é bom: Como a vida de uma pessoa comum é transformada quando ela começa a aparecer nos sonhos de pessoas aleatórias;
💬 A Rosalía deitou no divã da Bella Freud. É, ela está em todos os lugares;
📺 A nova série Pluribus está se desenrolando bem demais. Mal posso esperar o episódio novo que sai amanhã;
📕 Estou lendo “Kraftwerk: Future Music from Germany”, e na lista de próxima leitura está “O Bom Mal”, de Samanta Schweblin;
📻 Bad Bunny dominou o Spotify Wrapped;
🎧 “Tranquilizer”, álbum novo do Oneohtrix Point Never, é uma das coisas mais bonitas do ano;
🎵 Os melhores lançamentos de música ambiente de dezembro - tem alguns achados, mas meu favorito é o álbum “Various Small Whistles and a Song”, da Lia Kohl;
🚫 Adoro compartilhar o meu Spotify Wrapped, mas estou há alguns meses migrando de plataforma - tenho ouvido muito Bandcamp e Soundcloud, pois concordo com a Vivian Caccuri que é a hora de sair da plataforma.
Estou em Berlim neste momento numa viagem bate-volta, mas com muita coisa legal para compartilhar que ficará para a última Espiral do ano. Por ora, deixo aquele abraço.




Você sempre fala sobre o que eu tenho pensado, que ótimo ter essa(e) sincronia/telepatia/inconsciente coletivo/transmimento de pensação com você 🤍
Quero tentar novamente ter sonhário. Depois de um tempo de vazio no sono, estou voltando a sonhar muito.
Adorei a edição.
Um beijo!!!