Espiral: Pelados em Berlim
O que frequentar sauna tem me ensinado sobre a cultura alemã
Trilha sonora para esta edição: “Tremor”, do Daniel Avery. “Rapture in Blue” é perfeita para tirar a roupa e entrar no climão dessa newsletter.
Antes de mergulhar no tema ‘pelados em Berlim’, temos um momento dos comerciais da Insider, patrocinadora desta edição da Espiral.
Engraçado falar de roupa num texto sobre ficar pelada em Berlim, mas foi morando aqui que passei a olhar diferente para a primeira camada que encosta no meu corpo.
Hoje busco peças que funcionam bem. Gosto de peças que sejam práticas no dia a dia e me deixam feliz com a imagem que vejo no espelho. É exatamente por isso que a Insider se encaixa tão naturalmente na rotina. São peças que a gente veste e pronto, segue o dia.

E, já que estamos falando disso: aproveita que na Black November da Insider, os descontos chegam a até 50% + 15% extra usando o meu cupom ESPIRAL (vale para as promoções do site). Ou seja, descontão!!!
Corre, porque porque as peças duram anos, mas essas promoções passam rápido.
Dica: entra no grupo de WhatsApp da Insider para garantir o desconto antes de todo mundo. E segue lá no @insiderstore também.
Seguimos agora para o outro extremo do espectro para questionar o que acontece quando, em vez de escolher a roupa certa, a gente simplesmente tira todas.
Levei anos para me render à sauna, mesmo sendo casada com um sueco. Mas para sobreviver ao inverno em Berlim, acabei abraçando a cultura. Resultado? Hoje amo e faço sauna todas as vezes que vou na academia. Ou seja, três vezes por semana pelo menos.
A busca desenfreada por bem-estar transformou até as saunas em pontos de encontro social. Surgiram raves em saunas, clubes temáticos, experiências coletivas de “vamos suar junto”. Esse fenômeno começou a se espalhar em grande escala no ano passado e explodiu no início deste ano, espalhando-se para além do território escandinavo e dos países do norte, onde saunas são simplesmente parte da nossa existência cotidiana. Mas em Berlim, isso não é novidade nem moda passageira. Para mim, aderir à cultura da sauna tem sido uma iniciação na essência da cultura alemã.
Berlim está repleta de saunas: em academias, espalhadas pelos bairros, desde locais modestos até os mais chiques. E aí tem o Vabali, um dos spas favoritos dos locais. É um pedaço de Bali transplantado para o coração de Berlim, onde turistas são raros porque a entrada exige rendição completa: tem que entrar sem roupas e sem o celular.
Está pronto para mostrar o corpo em público como veio ao mundo? Se quiser aproveitar o rolê, precisa estar.
O spa é free-textile, ou seja, uma vez que você passa pelas catracas, tanto tecido quanto distração digital são proibidos. Os vestiários são mistos, embora haja uma ou duas opções só para mulheres - inconvenientemente localizadas longe de tudo.
O Vabali encarna a contradição particular de Berlim: é chique e cafona ao mesmo tempo, um complexo massivo tão concorrido que recomendo fazer reserva antes de colocar o roupão na bolsa. O local se espalha com piscinas aquecidas, piscinas com raias para nadar, jacuzzis coletivas, piscinas geladas para terapia de choque pós-sauna, restaurantes, bar, áreas de descanso com espreguiçadeiras, lareira e camas d’água, incontáveis refúgios, saunas de todos os tipos e temperaturas, sound baths e massagens. Dá para passar tranquilamente o dia todo por lá.
É um verdadeiro paraíso se sua versão de perfeição não exclui nudez pública e o celular trancado longe de você. O que, sejamos honestas, é um luxo cada vez mais raro. As pessoas estão pagando milhares de dólares para fazer retiros de detox digital, enquanto no Vabali você passa o dia todo desconectada por sessenta euros.
Se o dia estiver bonito, a pedida é comprar o passe diário ou o de seis horas, porque depois de atravessar a porta, é difícil querer sair. Para ter uma ideia do poder de recarregar a bateria: após festivais de música que exigem bastante da gente, é para lá que todos vão para se recuperar. Vira praticamente uma after-party do festival com carinhas conhecidas por todo canto.
Como funciona na prática: Na entrada, a gente recebe uma espécie de ‘relógio’ com RFID com o número do armário. Tudo é feito nele, incluindo compra de comida e bebida. Depois de se despir e jogar tudo no armário, o máximo que pode ter a tiracolo é livro e garrafa d’água. Não ouse carregar o celular junto - vai pegar mal se alguém ver você com ele na mão. A partir daí, o importante é ter um par de chinelos, roupão, toalha e paz.
Vale a pena lembrar que em termos de higiene, usar roupa de banho na sauna não é recomendado. Os tecidos dificultam o resfriamento natural do corpo, podem liberar microplásticos em altas temperaturas e, quando úmidos, acumulam bactérias. A nudez aqui é também uma questão prática e de saúde.
Todo mundo de todos os tipos de corpo imagináveis existe ali nu: tomando sol, suando, imerso, relaxando ou nadando. Os roupões ficam pendurados nas entradas das piscinas e saunas, que usamos basicamente para circular de um ambiente para outro, no restaurante e no bar porque, convenhamos, jantar nu carece de um certo je ne sais quoi.
Nada nos deixa mais vulnerável que a nudez pública, mas ela se torna uma vulnerabilidade coletiva quando todos compartilhamos a mesma condição. Não há constrangimento visível, muito pelo contrário. As pessoas se movem com uma facilidade notável.
E nós, vindo de culturas mais conservadoras que criticam corpos expostos - e ainda os colocam em risco - precisamos de várias temporadas antes que essa naturalidade se estabeleça. Eu já usei biquíni em saunas enquanto minha família sueca achava isso peculiar e provavelmente pouco higiênico; agora me juntei ao coro que acha frequentadores de sauna vestidos esquisitíssimos.
Sou hoje uma grande apreciadora da cultura FKK - Freikörperkultur ou cultura do corpo livre - que se estende muito além do simples despir.
O movimento surgiu na Alemanha por volta de 1900 - isso mesmo, início do século vinte - dentro de uma corrente chamada Lebensreform, literalmente “reforma da vida”, que defendia a vida natural, a conexão com a natureza e rejeitava o que consideravam artificialismo urbano. A nudez coletiva simbolizava liberdade, saúde e igualdade, opondo-se à rigidez da sociedade industrial. Durante a República de Weimar, o FKK ganhou força, espalhando-se por clubes, praias e lagos. Todo mundo ficou pelado.
Com a ascensão do nazismo, o movimento foi reprimido: organizações independentes de FKK foram dissolvidas ou controladas, embora, ironicamente, a noção de “corpos naturais e vigorosos” tenha sido cooptada pela retórica do regime.
As trajetórias pós-guerra divergiram dramaticamente. Na Alemanha Ocidental, o FKK sobreviveu em espaços organizados e regulamentados, frequentemente em clubes privados. Já na Alemanha Oriental, paradoxalmente, floresceu como prática popular. Em meio ao controle do Estado socialista, a nudez nas praias do Báltico e nos lagos se tornou um dos raros espaços de autonomia e liberdade.
Após a reunificação, o legado da Alemanha Oriental prevaleceu para a nossa sorte. O FKK é hoje parte intrínseca da identidade cultural alemã, e para mim, é um lembrete poderoso que nossos corpos podem existir fora da lógica da mercadoria e da sexualidade, além dos filtros e da ansiedade de performance que tanto nos afligem.
Essa aceitação casual da nudez alheia tem sido fundamental para eu navegar meu próprio corpo, aceitando-o e vendo-o como parte de uma comunidade que valoriza o bem-estar e a liberdade de simplesmente existir. Está tudo bem se o seu corpo não está perfeito, a maioria não está.
A sauna virou uma das minhas aulas práticas de cultura alemã. Não é só sobre o frio de Berlim, é sobre entender uma cultura que coloca o bem-estar coletivo acima de qualquer formalidade. Despir-me em público não é só tirar a roupa, mas largar o peso de convenções que carregamos.
No calor e no vapor compartilhados, as hierarquias se diluem e a vulnerabilidade nos aproxima. Foi ali, suando ao lado de estranhos igualmente nus, que comecei a me sentir mais pertencimento na Alemanha.
A sauna sempre me parece um lugar onde sempre algo muda, mesmo quando nada acontece. É um espaço pequeno, quase sempre igual, que deixa as regras do lado de fora. A gente entra carregando o mundo nas costas e sai com outra textura por dentro.
Talvez seja a combinação de calor e silêncio, ou o fato de que ali ninguém precisa fazer pose. As diferenças perdem o volume, a nudez simplifica e o tempo afrouxa. A transformação não é grandiosa: é sutil, quase invisível, como uma reorganização interna que chega sem esforço. A sauna acaba virando essa porta simples entre o que fomos durante o dia e o que ainda conseguimos recuperar de nós depois dele.
Social clubbing em saunas: Quando o bem-estar vira festa

O que acontece quando a gente mistura a cultura milenar da sauna com a cena de clubbing? Nasce um dos fenômenos mais curiosos do bem-estar contemporâneo: as sauna raves.
O epicentro dessa tendência é o HEATWAVE, série de sauna raves criada em Nova York pela parceria entre Daybreaker - precursora nas festas matinais sem álcool - e Othership - espaço de bem-estar que virou referência em social sauna rave. O formato alterna ciclos de sauna guiada, cold plunge (mergulho gelado controlado) e pista de dança - tanto de manhã quanto à noite, sempre com proposta sóbria ou pouco álcool. É a referência quando se fala em sauna rave nos Estados Unidos, com sessões que lotam regularmente no espaço da Othership.
Segundo dados da Eventbrite, os thermal gatherings - que incluem sauna raves e cold plunge parties - tiveram crescimento impressionante: os eventos aumentaram 256% e a participação explodiu 1.105% entre a primeira metade de 2024 e 2025. Nova York lidera a onda com crescimento de 900% em eventos desse tipo.
Berlim, claro, está na vanguarda. O Sisyphos tem a “Sauniphos”, festa com sauna, DJs, vapor e nudez coletiva. Clubes como o KitKat também têm sauna em seus espaços, criando ambientes onde o hedonismo encontra o autocuidado. Em 2017, foi criado o Saunasplash para unir duas das atividades mais bonitas: festivais e sauna. O último evento foi feito em 2024.
Mas a experiência mais singular talvez seja a Kirkko, que transforma a igreja Genezareth-Kirche em sauna sanctuary: instalações de sauna, música ambiente, techno mais contido, cuidado especial na iluminação e na acústica. É uma soft rave espiritualizada - uma noite imersiva que vem ganhando cada vez mais espaço na agenda cultural da cidade. A última edição teve ingressos esgotados (e eles custam bem menos do que as festas em saunas de Nova York).
Em Berlim, é possível também juntar a galera e fechar espaços de saunas para festas privadas. Já fui a uma e garanto que a diversão é garantida. Também rola alugar barco com sauna e navegar pelo Rio Spree com DJ a bordo.
Londres está se consolidando como um dos principais polos dessa cena. O Sauna Social Club em Peckham combina sauna finlandesa, ice baths, Aufguss e listening lounge, com sessões de deep listening e noites com DJs nas sextas e sábados. Virou um dos espaços mais disputados da cidade e as pessoas usam roupas.
Em 2023, foi criado o “The Saunaverse”, um festival inteiro dedicado aos entusiastas de sauna.
Já o ARC, em Canary Wharf, se apresenta como contrast therapy club e ostenta a maior sauna do Reino Unido, com sistema de som potente e eventos regulares com DJs. Funciona como espaço híbrido de socialização e bem-estar.
Em Portugal, o Tow Conscious Club, em Ericeira, realiza eventos “Sauna X Sound” que seguem a fórmula: sauna + cold plunge + sets de DJs com deep house, minimal e texturas orgânicas. O público circula livremente entre calor, frio e pista.
Mas muito antes de virar esta onda global, a Finlândia, berço da cultura da sauna, já tinha sua própria versão. Em 2004, criaram o Konemetsä, festival open air de música eletrônica na floresta que mantinha uma sauna finlandesa aberta 24/7 durante todo o evento. Era rave contínua com sauna em paralelo, mas infelizmente deixou de acontecer em 2009.
Por que isso está acontecendo agora?
O movimento reflete uma mudança geracional profunda. 61% da Geração Z quer beber menos para priorizar sono, saúde mental e condicionamento físico. A Eventbrite registrou aumento de 92% em eventos sober-curious, o que intitularam como soft-clubbing, uma nova forma de conexão social que une bem-estar, música e comunidade. Além das sauna raves, o fenômeno inclui coffee rave (aumento de 478% em eventos) e morning dance parties (crescimento de 20%).
A premissa é simples: DJs tocam em ambientes de sauna, as pessoas alternam entre dançar, suar coletivamente e mergulhar em piscinas geladas. É clubbing meets terapia nórdica, com a vantagem de você sair da festa não apenas exausto, mas genuinamente renovada.
As variações do movimento
Existem muitas formas de fazer isso acontecer: algumas festas são completamente nuas, outras permitem trajes de banho. Algumas incluem cerimônias de aufguss com sauna masters performáticos, outras apostam em música ambiente e deep listening. Há versões com fones de ouvido silenciosos e outras com sound systems potentes.
O que todas compartilham é a ideia de que suar coletivamente cria conexão - algo que sabemos desde rituais indígenas de temascal até os banhos públicos romanos.
Controvérsias e futuro
Claro que há resistência. Puristas da cultura da sauna acham uma profanação misturar um espaço de silêncio e contemplação com música eletrônica e corpos dançantes. E há sempre a questão do consentimento: sauna tradicional tem códigos de conduta muito claros; numa festa, essas linhas podem ficar confusas.
Mas o movimento já provou ser mais que uma tendência passageira. A Daybreaker, por exemplo, está presente em mais de 60 cidades globalmente após 13 anos construindo essa cultura. A fundadora Radha Agrawal explica: “Audiências mais jovens acabaram com as madrugadas; elas querem acordar se sentindo vivas, não esgotadas”.
Talvez o mais interessante seja que num mundo cada vez mais isolado e mediado por telas, as pessoas estão buscando experiências de vulnerabilidade física compartilhada. Seja numa igreja-sauna em Berlim, num clube em Peckham ou numa sessão matinal em Nova York, o desejo é se sentir parte de algo maior, mesmo que por algumas horas, mesmo que completamente nu.
Pelado
🧖🏻♀️ Nudez;
🇯🇵 Algumas reflexões sobre ficar pelado em público no Japão.
Berlin
🔵 Se você visitar Berlim, mas nudez coletiva é algo que não cogita, mas adoraria ter uma experiência diferente, vá ao Liquidrom;
🌅 Este Haman (banho turco) é só para mulheres;
🛖 Já o Sweet & Sweat oferece saunas em yurtas privadas para grupos. O Psychedelic Society Berlin promove eventos por lá oferecendo saunas psicodélicas;
🥂 Berlim tem também sua Sauna Social Club. A próxima festa rola na semana que vem (26.11). E, tem também, a Sensory Rave Spa.
São Paulo
🫧 Em São Paulo, o Banho Urbano oferece uma experiência bem próxima a que você terá em Berlim, mas sem a festa (pelo menos que eu saiba).
Extra
⛩️ Pesquisando sobre onsen, encontrei este guia para viajar no Japão para salvar e usar quando visitar o país;
📺 Estou maratonando “Better Things”, na Disney. Que série! Ela toca em tantas questões, incluindo a menopausa de um jeito bem bacana;
🪅 Escrevi recentemente sobre soft-clubbing aqui.
Beijos e bom feriado!





Seus posts são fascinantes, sempre aprendo algo novo! Nunca pensei que ficaria com vontade de viver a experiência de uma sauna peladona XD
É curioso como é “estranho” para nós brasileiros essa questão de ficar pelado em público, considerando que vivemos num país quente pra caramba, com um litoral gigante e que nossos antepassados são indígenas. Pela lógica, era para a nudez livre ser o comum por aqui. Mas aqui os corpos são sexualizados e isso complica tudo.
Confesso que quando estive na Alemanha fiquei chocada quando as pessoas de todos os tipos tomando sol nuas nos parques. Crianças jogando bola ao lado de homens nus. Isso aqui no Brasil é impensável e deixaria a família tradicional brasileira raivosa. E meu choque nem foi por puritanismo. Foi por ver perceber que nudez pode e deve ser naturalizada, e que o disfuncional é objetificar o corpo.