Espiral: Saldo do verão europeu
Festas nos museus, Hermeto Pascoal, WHOLE Festival, escuta ativa, ocupação das ruas
🎧 Trilha sonora para esta edição: All at Once, Sunfear
Depois de um verão tímido, com mais nuvens do que mergulhos, Berlim começa a retomar seus hábitos, e eu também. A estação mais aguardada do ano mantém seus próprios rituais ocupando terraços de museus com festas, barcos viram pistas, parques com cinema a céu aberto, as festas nos clubs se estendendo por cinco dias, a noite mal chega para logo virar dia.
A vida social fica acelerada com amigos hospedados no sofá, convites se sobrepondo no calendário, e a gente tentando dar conta de tudo (e, claro, que não dá). Agora esse fuzuê todo da temporada começa a desvanecer e eu já sinto falta dele. Pelo menos neste finde, o último oficial do verão, promete temperatura suficiente para tirar o maiô da gaveta - mentira, porque aqui a gente nada pelada.
Para mim, no entanto, este verão não foi simples. Adoeci, passei meses exausta sem entender por quê, até descobrir um hipotireoidismo que achei que era depressão. Tratando há pouco mais de um mês, já me sinto numa versão do futuro, pensando no verão brasileiro para onde seguirei em breve.
Mas mesmo oscilando entre o sofá e a rua, aproveitei bastante a cidade. Uma das coisas mais bacanas foi acompanhar a invasão de artistas brasileiros que trouxeram todo o calor que faltou no verão. Ocuparam os palcos de todos os estilos possíveis, do house ao techno, do hip-hop ao experimental, do samba à MPB, do jazz ao som que ainda não tem nome, mas quem roubou a cena foi o funk brasileiro. Ele penetrou as entranhas de muitos clubs de Berlim e quando a gente deu conta, estava batendo cabelo, colocando a mão na cintura e rebolando até o chão.
Bom… como adoro uma lista, decidi fazer um recap do que moveu meus últimos meses e fez minha paixão pela cidade só aumentar. Spoiler: foi principalmente a música ao vivo. Fica como dica caso Berlim esteja nos seus planos de viagem para o próximo ano.
Berlin Beats
Nas quintas-feiras de verão, o jardim do museu Hamburger Bahnhof se transformou em pista com o projeto anual Berlin Beats. A escalação de DJs trouxe uma inversão de gêneros: oito mulheres para quatro homens comandando a pista, algo raro e bonito de testemunhar. Gosto muito de ver senhoras idosas de cabelos brancos se divertindo tanto quanto a galera mais jovem. Aliás, elas se divertem mais.
Para casa, trouxe os sets pesados de graves da Sarah Farina e do AGY3NA, que agora são minhas trilhas sonoras na academia.
Fiquei feliz em ver que o MASP, em São Paulo, começou uma iniciativa parecida.
Flora Festival
Esse foi definitivamente um dos mais bonitos eventos do verão: simples, gratuito e sustentável. Nos fins de semana, no meio da natureza, rolou o Flora, um festival de escuta com música ambiente ao vivo. Foi uma espécie de ritual propondo outro ritmo para o tempo. O corpo e os ouvidos agradeceram.
Sempre que falo sobre ‘escuta profunda’, me vem à mente a Pauline Oliveros que disse: Escuta profunda é escutar de todas as formas possíveis tudo o que for possível ouvir, não importa o que você esteja fazendo.
O Flora colocou tudo isso na prática, dos sons da própria natureza em volta às conversas sussurradas se misturando ao som eletrônico.
Se você está em São Paulo e quer viver algo parecido, recomendo a Protopia, que terá sua próxima edição na segunda-feira, dia 22 de setembro. Eu não perderia. Em dezembro, acontece o Novas Frequências, no Rio de Janeiro (espero estar por lá), que também oferece este tipo de experiência.
Deixo um set para sentir como foi o Flora Festival: Sarah Wreath.
WHOLE Festival
O WHOLE é um dos festivais mais diferentes e diversos que já fui. Esta foi a minha quarta vez e continuo me surpreendendo em ver tantos corpos nus, enfeitados, híbridos, à vontade, sem pedir licença. O festival entrega o que promete: uma grande utopia queer vivida numa cidade temporária, onde máquinas de ferro que parecem fósseis de outro tempo: Ferropolis.
Nesta última edição, em um dos dias rolou um palco totalmente dedicado ao funk brasileiro. Foi bonito ver a brasileirada dominando o território alemão, a pista cheia e animadíssima, com os brasileiros matando as saudades e a gringaiada passada com a vibe que só o funk tem.
Clementaum e Mílian Dola fizeram o meu set favorito do festival e a Bonekinha Iraquiana incendiou tudo. Só não derrubou um drone porque não tinha nenhum voando no momento.
O festival está com intenções de desembarcar no Brasil. Caso queira saber mais, me de alô.
Para ouvir os sets que rolaram no festival, cola aqui.
Hermeto Pascoal no Psicotrópicos
Quando comecei a escrever essa newsletter, o bruxo da música Hermeto Pascoal estava vivo. Foi com uma tristeza profunda que soube de sua morte no fim de semana passado.
Tive o privilégio e sorte em vê-lo tocar há dois meses na Neue Nationalgalerie, no Psicotrópicos. Hermeto estava bem frágil ao entrar no palco, mas quando o show começou, ele surgiu com a força da música que era maior que o festival. Foi impossível ignorar.
Não foi a primeira vez que eu o vi ao vivo, mas naquele dia me senti melancólica, talvez por ver seu corpo cedendo. Chorei quando ele tocou na chaleira, que deixou o público gringo abismado com o que esse mago extraordinário fazia no palco.
Miles Davis estava certo quando disse que o Hermeto Pascoal era o músico mais impressionante do mundo. No último domingo, passei pela Neue para ver a performance “Bells for Peace”, da Yoko Ono. Peguei meu sino, me juntei à multidão e homenageei esse gênio que há tão pouco tempo tinha emocionado tanta gente neste mesmo lugar.
Soundscapes in the Garden
O Soundscapes in the Garden foi uma série de eventos no jardim de esculturas (também) da Neue Nationalgalerie. Soube que o arquiteto Mies van der Rohe pensou no espaço para receber música - a construção é de 1968. A função está sendo bem cumprida. O palco flutuava no espelho d’água e por quatro dias abrigou encontros íntimos com artistas de peso. Hania Rani foi a minha favorita, alternando piano e batidas eletrônicas até me arrancar lágrimas (sou a que chora em show).
Foi criada uma experiência sonora espacial que convidou o público a caminhar pelo jardim para escutar de vários pontos do espaço, descobrindo novas perspectivas do som. Loraine James, Pantha du Prince e Alva Noto também passaram pela programação. Novamente, um evento convidando a escutar prestando atenção.
Berlin Atonal
O Atonal cresceu, ficou caro, e acabei indo só um dia. Perdi Merzbow com Iggor Cavalera e Eraldo Bernocchi, ausência que doeu, mas assisti a dupla Aho Ssan & Resina com “Ego Death,” num show que cortou o ar do Kraftwerk em duas metades, o peso da eletrônica e o lamento das cordas. Às vezes basta um único set para justificar um festival inteiro.
Foi curioso pensar que o mesmo Kraftwerk, onde o som costuma sacudir concreto e costelas, dedicou uma temporada inteira ao silêncio. O projeto “Quiet Space” abriu as portas do espaço - também no verão - totalmente vazio, desprovido da vida vibrante que costuma ter, tornando o vazio tão cheio que ocupava tudo.
AUDĪR: The Art of Listening
O AUDĪR é um projeto dedicado à escuta profunda e conta com uma curadoria impecável. Fizeram duas edições este ano e consegui ir na última. A locação em si já era uma atração a parte: uma antiga ferraria, datada de 1832, abandonada após 150 anos de uso. O lugar foi redescoberto há 15 anos totalmente degradado. Fizeram uma grande reforma para dar lugar a um espaço de eventos. Tem cara de casa, com biblioteca, sistema de som parrudo, muitos tapetes espalhados, poltronas, cozinha e, o melhor, um pequeno club escondido no porão.
Com um público de menos de 200 pessoas e um line-up de peso, passei quase cinco horas estirada no tapete ouvindo música ambient e experimental ao vivo. Tive momentos catárticos, afinal escutar prestando atenção pode nos levar a lugares inesperados.
Me emocionei ao ver uma audiência tão diversa - de idosos a jovens - vivendo a comunhão que esse tipo de experiência, com músicas tão bonitas, é capaz de proporcionar.
Claro que depois escapei e fui dançar no inferninho com desconhecidos que viraram amigos após passar tanto tempo deitados juntos entre almofadas.
A rua é nossa, precisamos ocupá-la
Em São Paulo e nas grandes cidades brasileiras, a festa acontece quase toda ‘dentro de lugares’, porque a segurança e o governo impedem a ocupação das ruas. Só quando a prefeitura promove eventos, o centro se enche de pessoas. Aí é bonito ver o espaço público virar realmente público.
Berlim e outras cidades europeias, por outro lado, vivem o verão na rua, afinal mal temos ar-condicionado, então ela é o lugar mais fresco para estar. Muitos museus e instituições abrem seus ‘quintais’ com programação gratuita, diversa e concorrida. Ali, o que poderia ser espaço institucional se transforma em terreno fértil para experiências culturais, nem sempre mainstream, com muitas coisas imprevisíveis e conectadas ao que a cidade realmente quer ser.
Além desses espaços institucionais, as festas se alastram por parques - veja o caso do Mauerpark que tem várias festas acontecendo ao mesmo tempo todo domingo - lagos e até mesmo na rua.
A crise de identidade e da gentrificação afeta a capital alemã como afeta muitas cidades grandes, mas ocupar e viver o espaço público cria um engajamento maior da população com a cidade e causas sociais, afinal a cidade é minha além do quadrado que vivo. Preciso cuidar dela.
Logo que me mudei para Berlim, eu estranhava a quantidade de manifestações que aconteciam na cidade, mas elas acontecem porque a ‘rua é nossa também’. Viver a rua traz formas de reimaginar a cidade e seus territórios. No Brasil - e em muito lugar do mundo, rola intimidação e insegurança de ocupar as ruas para brigar pelo que é nosso. E isso vai nos transformando no máximo em ativistas de sofá.
A situação política está cada vez mais complexa e difícil na Alemanha, mas ainda assim parte da população resiste e não abre mão de seus direitos. Não é fácil, mas possibilita a gente enxergar um futuro melhor do que o presente.
Bom, esse é assunto para uma próxima newsletter.
We’ve only just begun
👨🏻🏫 Adoro o trabalho do filósofo Ali Prando, que cruza filosofia com divas da música pop. No dia 18 de novembro, vão rolar dois workshops com ele em Berlim que estamos produzindo em conjunto: Judith Butler x Madonna e Charli XCX x Mark Fisher;
🎬 Recomendo o filme “Outrun” (Netflix), sobre alcoolismo com uma fotografia belíssima e atuação magistral da Saoirse Ronan;
📚 Estou lendo “O desabamento”, do Édouard Louis (vou vê-lo falar sobre o livro neste sábado, então passei ele na frente dos outros);
📝 Se você está em Berlim e escreve, vai rolar um workshop com a Conceição Evaristo, na HKW, em outubro;
☯︎ O zensounds compilou uma lista maravilhosa de 8 álbuns perfeitos de música ambient japonesa. Eu destaco Midori Takada - Through The Looking Glass;
🇧🇷 Os saberes que ainda nos faltam;
📢 Da Califórina a lugar nenhum;
♡ O Ted Gioia fez uma bonita homenagem ao Hermeto Pascoal;
🫧 Como foi ter o melhor emprego do mundo;
🗄️ Bullshit Jobs Will Save Us All;
🌳 Linkei no texto acima, mas trago pra cá: moro ao lado do Mauerpark e, quando não tenho nada pra fazer no domingo, eu sigo pra lá, porque é sempre diversão na certa. Sempre tem artistas tocando diferentes estilos por todos os lados. Adoro ver o senhor deste vídeo (de cabelos brancos longos) todo domingo animado em alguma roda de música eletrônica.
Bom fim de semana. Volto em breve!
Lalai











e o fomo de berlim que isso me dá? a ultima vez q fui foi 2019 pre-pandemia. deve estar tudo tao diferente que tenho medo de voltar.
e a sarah farina é incrível, vi esse set dela no waking life em 2023 e tb ouço pra malhar: https://on.soundcloud.com/QBj7jCpNvMTX7aBc8k
Querida Lalai,
Te acompanho já há algum tempo e amo os posts com dicas. Cheguei em Berlim há pouco mais de 20 dias e fico até o final do ano. Onde posso acompanhar a programação de eventos como esses de post de hoje? Amei todas as recomendações e quero muito saber o que está por vir! 🫶