Espiral: Seis anos fora do eixo
Berlim não para de entregar
Trilha sonora: Endlessness, de Nala Sinephro
Completei seis anos morando em Berlim no último dia 3 de outubro. Cheguei aqui numa data simbólica para os alemães: o dia da unificação da Alemanha. Parece ontem, como a minha chegada, mas se passaram 35 anos desde a queda do muro.
O meu objetivo inicial era passar uma temporada, experimentar viver em outro país em uma cultura diferente da nossa. Mas, de alguma forma, perdi o controle. Quando percebi, eu anunciava ‘família vende tudo’. Roupas, carro, bicicletas, móveis, louças. Até o contrato de aluguel foi passado para uma amiga.
Olho para trás e não entendo muito bem o que aconteceu. Em que momento saímos da ‘temporada’ para o ‘não sei se volto’?
Vejo as fotos da mudança: mais colágeno, loira, com uma tintura que deu errado, um olho roxo por causa do preenchimento que também deu ruim, ainda sofrendo com TPMs, e quase não me reconheço. Uma imagem desfocada, distante demais de quem sou hoje.
Não evoluí - essa palavra soa corporativa demais - mas viver num país que não é o seu desmonta partes que a gente nem sabia que eram móveis.
Seis malas, a excitação de aprender alemão e muitos planos na cabeça. Queria usar Berlim como base e continuar virando o mundo do avesso, como fazia na época. Mas percebi que já não era a mesma pessoa que achava que era antes mesmo de chegar aqui. Fui tantas, e às vezes todas coexistiam numa espécie de justaposição que só Berlim parece permitir.
Não foi um “recomeço”, como nas narrativas motivacionais. Tem sido um desmonte progressivo que me faz questionar onde vou parar. As camadas que trouxe do Brasil - trabalho, língua, saúde, amizades, família, networking - foram sendo arrancadas uma a uma. Então, fiquei ali, segurando peças que não se encaixavam, como se tivesse nas mãos um grande quebra-cabeça com muitas peças que não eram dele.
Foi em Berlim que enfrentei o pesadelo que antecede a menopausa. No frio, com um sistema de saúde que não funciona para quem não falam alemão direito. Uma solidão específica: estar rodeada de gente e, ainda assim, conversar sozinha com o próprio corpo. No consultório, frases travadas, a médica bufando, e eu saindo com a sensação de que não consegui explicar nada, muito menos entender o que ela falou. Foram três anos para conseguir reposição hormonal e ela tem feito minha vida ser melhor.
As amizades... aqui, elas não são só difíceis de construir. Eu mesma me tornei outra pessoa enquanto tentava criá-las, e a base já nasce instável. Berlim é uma cidade de passagem: as pessoas vêm e vão. Quando nos apegamos, é hora de se despedir.
Nesse terreno que cede o tempo todo, inventei trabalhos para me manter de pé: Órbita, Espiral, The Next Day e Senda. Não projetos “empreendedores” no sentido clássico, mas dispositivos para continuar existindo. A Órbita nasceu de conversas com amigos sobre o que não cabia nas agendas; a Espiral virou meu espaço para escrever o que não tinha outro lugar; The Next Day é uma lente para decifrar Berlim em seus cantos mais íntimos; e a Senda, uma forma de transformar tendências em experiência.
Também aprendi a viver com menos, a conviver e apreciar as diferentes estações do ano, a cozinhar (e gostar disso), a comer aspargo, a adorar ficar em casa, a cuidar do corpo e me apaixonei pela yoga, que pratico há anos em alemão. Precisei aceitar que a saudade não passa. A distância dos meus pais e o envelhecimento deles se transformou em dor (e culpa) que muda de lugar: às vezes nas costas, às vezes no estômago, sempre presente. Mas aprendi que não tenho muito o que fazer a não ser visitá-los tanto quanto puder.
Ser imigrante não me deu “resiliência”. Ensinou que a vida se ajusta ao espaço que temos. No supermercado, ainda me pego tensa, escolhendo palavras para falar com o caixa. No consultório, já fui a última a ser atendida porque não entendi a pronúncia do meu próprio nome. Na rua, aprendo a andar devagar para me manter no ritmo da cidade.
Essa odisseia diária me deu uma relação mais madura com o pertencimento: não tenho mais um lugar fixo, mas movimentos, interações, projetos e fragmentos que se conectam. Aprendi a depender menos do reconhecimento externo, a criar comunidade quando dá e a lidar com o silêncio quando não dá.
O silêncio, inclusive, virou um bom companheiro. Ensina-me a contemplar, coisas pequenas e grandiosas. Muitas vezes me pego sorrindo com momentos bobos, como ontem, na aula de yoga, quando percebi que entrei numa aula errada e tive que me virar para dar conta da aula de funcional. Rir de mim mesma é uma prática diária e uma forma de me manter sã.
Berlim, com sua instabilidade e contradições, não é só um lugar. Ela interfere no meu corpo, no meu ritmo, no meu pensamento. Continua me revirando. Trouxe versões de mim que, talvez, eu não conheceria no Brasil. Tem ganhos e perdas, mas a escolha sempre é abrir mão de alguma coisa.
E, na escolha, sempre há uma liberdade nova: a de não se explicar, a de não caber. Apenas ser. E, nisso, vejo o que há de mais bonito nessa aventura de seis anos na minha vida em Berlim: aprender a somente existir. E deixar essa sensação me satisfazer.
Aprendi que o que me coloca em movimento, que sempre achei que era esperança ou disciplina, na verdade, é a minha curiosidade - aquela que me faz aceitar convites improváveis, a colocar fricção na minha vida e a aprender coisas inúteis.

Olho minhas fotos desses seis anos e gosto do que vejo: uma noite numa rave clandestina no meio de um parque, um concerto para dormir, um picnic em quadrados devido às distâncias, banho em lagos, aurora boreal no meio da cidade…
Aprendi a ficar pelada em público e é uma das experiências mais libertadoras de todas. Passei a amar os lagos, a esquecer a hora enquanto derreto em saunas, pedalar dez quilômetros só para ver um pôr do sol bonito, navegar por horas num barco-jacuzzi pelo Rio Spree. Conheci ídolos de adolescência ao vivo, me apaixonei por músicas estranhas, fiz amigos de países que mal sabia que existiam.
Essa mesma curiosidade me empurra a escrever newsletters, que são mais laboratório do que produto final. A curiosidade nem sempre resolve, mas pelo menos me mantém mexendo, desarrumando, revirando, aprendendo.
Seis anos depois, não tenho uma conclusão, um slogan ou uma frase de efeito. Tenho uma vida nada linear, atravessada por uma cidade e um país que não são meus, mas que me obrigaram a me reconhecer de um jeito que nunca tinha feito antes. E, essa é a sensação de qualquer pessoa que muda país.
Dance Called Memory
♪♫ “Reappcom earance”, de Hélène Vogelsinger, and “Out the way”, Marta & Tricky;
🎹 Duas artistas que tenho ouvido bastante: Soap&Skin, Emma-Jean Thackray e, a mais esquisitona para alguns, Abigail Toll;
🇵🇸 Uma viagem musical pela Palestina;
🎧 “O que fazer com Heleninha Roitman? O estigma e a realidade do alcoolismo no Brasil,” do Mamilos;
📕 Estou lendo “Te dou a minha palavra”, da Noemi Jaffe, e totalmente apaixonada pela escrita dela;
📚 Aguardando ansiosa o lançamento do “Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It”, novo livro do Cory Doctorow. A “The New Yorker” publicou um ótimo texto sobre ele intitulado “The Age of Enshittification”;
💥 Bad Bunny roubou a cena com sua residência de 31 shows em Porto Rico, dando um belo boost na economia do país, já que os fãs que queriam muito vê-lo ao vivo tiveram que voar até San Juan. Agora ele volta a roubar a cena com o anúncio de sua participação no Super Bowl, prometendo fazer um grande protesto anti-Trump ao vivo;
📚 Genial! A cantora Solange criou uma biblioteca disponibilizando sua coleção de livros de arte, que podem ser emprestados gratuitamente por até 45 dias para quem mora em qualquer lugar dos Estados Unidos;
💌 Dashboard Culture vs. Camouflage Culture reflete como a cultura tem sido moldada pelo espetáculo e pelas métricas, levando à perda da crítica e da autenticidade, além de mostrar como resistir a esse fenômeno e preservar valores mais profundos da cultura;
📺 “A crise dos caras”, série alemã sobre 4 amigos nos seus 40 anos com muita dificuldade de lidar com a ‘masculinidade moderna’. É um remake da série espanhola “Machos alfas”;
🍿 Na lista para assistir a série “Somebody Somewhere” (Apple TV); e “Agente Secreto”, novo filme do Kleber Mendonça Filho, que estreia hoje simultaneamente no Brasil e na Alemanha.
Vou aproveitar que saiu um sol e pedalar para contemplar uma das estações mais bonitas do ano, o outono.
Boa semana,
Lalai




"Não evoluí - essa palavra soa corporativa demais - mas viver num país que não é o seu desmonta partes que a gente nem sabia que eram móveis" Que reflexão bonita, Lalai. Gostei da sua perspectiva sobre como a mudança de país revira a pessoa. Há algo muito mágico na ideia que temos da chegada e de como os planos ganham outras formas (ou metamorfoses) ao longo dos anos. Suas palavras mexeram comigo, vou revisitar esse texto muitas vezes <3
Suas reflexões são ótimas e para quem também mora em Berlim, faz com que eu me identifique ainda mais. Parabéns pelo jeito de escrever, me faz lembrar um pouco o estilo do que li esse ano do Karl Ove Knausgård e também Ioga de Emmanuel Carrere, que acabei de terminar.