Espiral: Yoga e o que o corpo guarda
Minha história com a yoga: Do Youtube à Rishikesh, na Índia
Olá,
Estou de volta, agora escrevendo da casa dos meus pais. Para quem acompanhou as últimas edições, tenho boas notícias: meu pai está em casa. Felizmente está tendo uma ótima recuperação e afirma estar se sentindo melhor do que antes mesmo do infarto, afinal carregava um coração pesado e cansado, que agora parece revigorado.
Esta edição é especial, é um mini newsletteraço sobre ‘maromba’, como nomeou minha amiga Gaía Passarelli. Ou seja, um grupo de newslettera, que amo, se reuniu para escrever sobre suas rotinas de exercício físico. Os links das participantes estarão no fim dessa edição (vou atualizando conforme elas vão sendo publicadas).
Escolhi a yoga, minha atividade física favorita. 🧘🏻♀️
Trilha sonora para essa newsletter: Seven Waves, da Suzanne Ciani
A yoga é para mim uma das atividades físicas mais bonitas que existe. Gosto de ver os corpos alongando, se contorcendo de um jeito que parece impossível, a coluna reta como ela deveria ser. Adoro assistir alguém dobrando o próprio corpo em ângulos absurdos, equilibrando-se sobre as mãos por tempo demais, sustentando o que parece insustentável, ficando em pé de ponta-cabeça. O rosto permanece neutro mesmo com os músculos trêmulos.
Gosto também de prestar atenção na respiração quando observo alguém praticando ou mesmo ver meu abdômen se mexendo lentamente no espelho. E é justamente a respiração que organiza tudo, que separa a yoga de simplesmente se contorcer nessas posições estranhas… mas tão bonitas. Quando respiramos consciente, o corpo ganha presença de uma outra forma. A gente sente o corpo diferente. Ou pode ser que a gente precise acreditar nisso, que exista algo mais do que força e flexibilidade, algo que justifique torcer o corpo daquele jeito. Não sei. Só sei que é bonito. Nas aulas de yoga eu gosto de contemplar as pessoas à minha volta totalmente sublimes, absortas em seu próprio corpo e, a mente geralmente tranquila.
A primeira vez que fiz uma aula de yoga foi no início dos anos 2000. Gostei, mas não voltei. Na época, eu torcia o nariz para quase tudo que vinha do Oriente. Crescer entre duas culturas me deixou cansada sobre tradições que eu não conseguia carregar. Assuntos familiares me sufocavam numa cultura que parecia exigir uma lealdade que eu não estava pronta para dar.
O tempo passou. Fiz as pazes com tudo isso e aos poucos voltei a me aproximar da cultura oriental de maneira curiosa. A meditação retornou à minha rotina, mas nem lembrei da yoga.
Em 2020 (o ano fatídico) conheci o californiano Tim e o Ollie, seu goldendoodle, no YouTube. Tim tem um sorriso de quem respeita o tempo das coisas e uma calma que me convenceu a aceitar seu desafio de trinta dias de prática. Comprei tapete, blocos, chamei o marido e transformamos a sala num estúdio improvisado todos os dias pela manhã. Às 8h30, lá estávamos cambaleando entre posturas, segurando o riso da trapalhada alheia, tentando colocar as mãos nos pés, mas chegando no máximo nos joelhos.
As primeiras semanas não foram fáceis. Descobri um corpo cheio de limitações parado no tempo, a respiração presa no peito, o equilíbrio inexistente e a flexibilidade, coitada, inexistente. No fim das aulas acontecia algo que sempre me desconcertava: eu desatava a chorar. Era, de repente, passar a sentir tudo – dor, cansaço, vulnerabilidade, que na época parecia maior que eu. Chorar passou a ser a minha forma de processar toda a mudança pela qual eu passava. Era tristeza, alívio e, até, alegria.
O Tim acompanhou minhas manhãs por tempo suficiente para que a yoga deixasse de ser um experimento e virasse hábito. Aprendi os nomes das ásanas, melhorei a respiração (algo que nem fonoaudióloga tinha conseguido), vi o equilíbrio melhorar. Pequenas conquistas ganhavam proporções absurdas: fazer o cachorro olhando para baixo com os calcanhares no chão e não cair na posição da árvore eram motivos de comemoração.
Com a rotina retomada, me matriculei numa academia perto de casa e testei todas as aulas possíveis. As favoritas surgiram em alemão, tornando a prática mais imersiva: era preciso estar presente no corpo, no idioma, no ritmo, no som das instruções, sem brecha para deixar a mente vagar. Era exatamente o que precisava, um espaço para desligar do mundo lá fora e sentir absolutamente tudo.
Cada dia trazia uma experiência diferente: segunda a aula mais lenta do mundo, toda feita no chão - mãos, pés, calcanhares; na quarta, Ashtanga com movimentos sempre repetidos e evolução clara - virou minha favorita; quinta, uma aula mais aérea cheia de desequilíbrios e sábado com incenso e cantos, uma yoga mais próxima das origens, às vezes com bronca em quem não prestava atenção. Aprendi que yoga não é só exercício, é também ritual e dos mais bonitos.
Em 2024, com viagem marcada para a Índia, me animei em ir mais longe: me matriculei para uma semana em um retiro em Rishikesh, no sopé dos Himalaias. Encontrei uma escola fora do centro, escondida nas montanhas, cercada de floresta. Acordava antes do sol nascer, seguia sonolenta até uma sala lotada de gente, despertava enquanto entoava mantras, seguia então para a aula de pranayama (respiração), depois meditava por uma hora e então, fazia noventa minutos de Hatha Yoga. Tudo antes do café da manhã. Nunca me senti tão revigorada e viva.

As aulas de yoga eram menos fluídas e mais técnicas. O objetivo era desmontar cada ásana, entender cada movimento, corrigir cada detalhe até ela ser mais intuitiva. Foi revelador aprender a sentar e rever posições que eu já conhecia, mas que ali pareceram mais naturais e fáceis.
Aprendi que ásanas, na tradição hindu, são parte de um sistema maior: elas servem para preparar o corpo para meditar. Pranayama faz a ponte entre corpo e mente, enquanto a meditação é o objetivo central. A lógica é simples: precisamos de um corpo saudável e forte e de uma respiração controlada e calma para então conseguir aquietar a mente.
Se fui até a Índia para buscar transformação, eu encontrei o caminho. Acordava cedo demais, passava frio, o corpo doía, a mente resistia ao volume de prática em alguns momentos. Mas quando tudo terminava e eu me deitava na savasana final, eu sentia que estava exatamente onde precisava estar, até mesmo meditar já estava mais fácil.
Voltei da Índia querendo ficar mais. Uma semana foi pouco, mas foi um portal. Aprendi que yoga não é sobre perfeição, é sobre voltar ao tapete, ao corpo, a si mesma.
Ainda não sou uma praticante fervorosa, mas sem yoga minha vida não fica. Quando fico muito tempo sem praticar, sinto falta do estado que ela me proporciona: faz o mundo parar e eu consigo estar toda ali. A maior vantagem da yoga, é que a gente só precisa de um espaço e um tapete. Dá para levá-la para onde a gente quiser. Eu, particularmente, gosto mesmo de fazê-la em grupo, por isso falho ainda em praticá-la sozinha em casa.
A yoga me ensinou que o corpo guarda tudo: tensões, medos, alegrias contidas, tristezas. Que às vezes, na savasana, tudo isso emerge. Chorar no tapete é tão legítimo quanto celebrar conquistas. Ambos fazem parte do mesmo caminho.
E, para quem ainda não leu, eu sempre indico a leitura de “Ioga”, do Emmanuel Carrere, que não é exatamente sobre a yoga, mas parte dela.
Nas academias vizinhas temos:
Gaía Passarelli conta sobre sua rotina de marombeira (amo esse termo) numa academia vinatage de bairro: Ta Todo Mundo Tentando: ir pra academia;
Paula Maria traz sua história e aventuras com a corrida, um dos exercícios físicos mais democráticos do mundo. O texto dela foge do lugar comum de tentar convencer você também a correr: Correr e coçar é só começar?
Mariana Moro mergulha na água a partir do livro “Esforços olímpicos”, da Anelise Chen: Mergulho.
Camila Perlingeiro escreve sobre o corpo gordo, o exercício físico e a máquina que mantém a mente (mais ou menos) sã: o corpo que aprende.
Ana Rüsche discorre sobre como aprendemos a andar: a dor e os exercícios físicos.
Jéssica Balbino questiona se a gente precisa mesmo simular uma vida fitness e propagar isso incansavelmente: Te pago e daí?



Me emocionei com o parágrafo final 🥹tão poderoso como os movimentos soltam o corpo e as emoções
Ei, Layla que bom vê-la escrever sem angústia! Boas vibrações para o pai. Também voltei a minhas aulinhas de yoga, depois de 2 anos de pilattes! Yoga é tudo de bom, relaxa, energiza, desperta a consciência da respiração e de uma vida mais no ritmo natural. Acho que comecei a te seguir por causa de uma crônica sobre tua viagem à Índia. Um dia quero ir. 🙃