Kissabō: uma casa de chá onde se pede silêncio
A gente quer o silêncio ou quer ter desejado o silêncio?
Trilha sonora para esta edição: Blurrr, da Joanne Robertson
Foi o organizador para uma possível fila que me chamou a atenção. Parei para entender que lugar era aquele. Uma porta vermelha entreaberta coberta por uma típica cortina japonesa até o meio num tom mais claro. Ao lado, uma placa de aço escovado presa à parede escrito Kissabō. Abaixo, em caracteres pequenos, provavelmente a mesma palavra em japonês.
Já tinha passado ali em frente outras vezes, mas os ruídos do dia a dia tinham apagado a lembrança. Uma placa pendurada dizia: espera entre 15 e 30 minutos. Não havia fila. Sugeri ao meu amigo entrarmos.
O lugar estava mergulhado em silêncio. Um casal num tatame lia e tomava chá sem conversar. Uma moça sozinha, sentada no bar, também lia um livro e duas senhoras de frente para o balcão, assistiam o barista, vestido num kimono preto, preparar um matcha de maneira ritualística - com uma concha pegava a água numa vasilha à sua frente, separava o pó verde, e passava um tempo longo mexendo com uma escova de bambu. Sem pressa com o olhar fixo no processo que fazia.
A mulher que nos recebeu pediu para que falássemos baixinho - mas na entrelinha entendi que preferia que ficássemos calados.
Sentei de frente para o balcão ao lado da moça que lia o livro. Ela se aproximou e cochichou “você não estava no book club x?” Era eu mesma. Tínhamos sentado na mesma mesa. Cochichamos um pouco e me voltei para o menu. Escolhi um matcha pela descrição e, para tomá-lo, optei por uma cumbuca preta, arredondada, escovada, simples. Contemplei a preparação com fascínio. Recebi o matcha com as duas mãos seguindo o ritual em que me foi entregue. Olhei para o líquido verde-escuro e sorvi um gole. Senti o amargor descer pela garganta. Matcha definitivamente não é uma bebida que gosto.
Tomei devagar, como se fosse um vinho caro - ou como se soubesse beber matcha, que não é a mesma coisa. Fiquei olhando para todos os lados. Me sentia um pouco inquieta, curiosa. Confesso que entrei porque vi uma pauta boa. Queria escrever sobre o lugar. Queria ter assunto. Queria uma história para contar.
Kissabō é uma palavra inventada. Kissa (喫茶店) é o café de bairro japonês onde se ouvia jazz em silêncio obrigatório, com um rigor que nós ocidentais temos dificuldade para alcançar. Sabō (茶房) é a sala devotada ao chá e ao silêncio. Uma palavra que não existia antes de Gosia e Marcin, dois poloneses que viajaram para o Japão e de lá trouxeram a vontade de ter um pedacinho da Terra do Sol Nascente no meio de Prenzlauer Berg, o bairro onde moro.
Para mim, Kissabō soa como uma criança diante de algo delicioso. Que sabor! Qui sabô! Arredondado, surpreso, infantil. Uma palavra japonesa inventada por poloneses que em português vira um espanto gustativo.
O kissaten pós-guerra nasceu exatamente desse tipo de devoção. O amor japonês pela música ocidental originou cafés onde se ouvia jazz em silêncio obrigatório, com uma reverência que os ocidentais jamais praticaram. Tem algo curioso nisso: o estrangeiro que leva mais a sério o que o nativo já normalizou. O jazz americano virou ritual japonês. O ritual japonês, agora, vira ofício polonês em Berlim. Gosia e Marcin não trouxeram o Japão para Berlim. Criaram algo que o Japão não reconheceria completamente como seu e que é, por isso, mais honesto que qualquer autenticidade. É uma tradução que traduz uma tradução, e o resultado não pertence mais a nenhuma das línguas de origem. Ninguém ali é de onde parece ser.
Eu estava lá dentro pensando nisso. Não no chá, mas no que ia escrever sobre o chá. Sobre os pedacinhos de países construídos em outros países, sobre querer tanto parecer algo, que se torna esse algo.
Os japoneses têm uma palavra para o que o lugar tenta invocar: ma (間), palavra a qual eu poderia escrever um texto só sobre ela. Ma é o intervalo. A pausa. O espaço entre. Não é a ausência, mas uma possibilidade não preenchida.
Ma é o que o ritual do chá tenta criar. É o que eu violei ao cochichar com a conhecida que me reconheceu no canto do balcão. É a troca de impressões que eu e meu amigo sussurramos enquanto experimentávamos o matcha do outro. É o que as meninas que chegaram depois violaram ao fotografar cada canto do lugar. É o que eu violei depois, ao fotografar também, mesmo tentando ser mais discreta do que elas.
A diferença entre mim e elas era de segundos e uma autoconsciência que me deixou envergonhada. Nenhuma das duas coisas salva ninguém do mesmo gesto.
Fui ao banheiro para observar o espaço a partir de outro lugar, ou seja, para ter mais material. Tudo bem cuidado, luz muito baixa. E então o vaso sanitário com uma luz azul, quase radiante, que contrastava com tudo. Ao sair, fiquei atrás da cortina fina e transparente olhando o salão antes de voltar. Pareceu ainda mais bonito. Fiz duas fotos dali.
Antes de pagar, o barista - o Marcin - puxou conversa sussurrando que tínhamos escolhido as duas louças preferidas dele. Perguntamos há quanto tempo ele estuda matcha.
Dez anos, ele disse.
Quis saber mais. Quis perguntar o que dez anos ensinam sobre a atenção, sobre o que a gente perde quando se apressa, sobre como é viver dentro de um ritual enquanto o mundo do lado de fora pede para acelerar. Mas o próximo cliente esperava. Ele voltou à concha, à água, à escova de bambu sem pressa, sem olhar para os lados.
E eu fui embora com a minha história, que era o que eu vinha buscar.
O Kissabō me deixou com a pergunta se o que a gente quer é o silêncio ou quer ter desejado o silêncio? Quer contemplação ou quer poder dizer que esteve num lugar de contemplação?
Porque querer de verdade exigiria chegar e apenas estar, sem ter um texto que não parava de se esboçar na minha cabeça. Exigiria não transformar a experiência em narrativa enquanto ela ainda está acontecendo.
Eu paguei 8 euros por um matcha que não é meu rolê e saí com material suficiente para um texto. O lugar entregou o que prometia. Eu fui buscar história e saí querendo voltar, mas dessa vez sem o celular, sem o amigo, sem sentir a necessidade de ter que contar depois.






Foi no chá (Camelia sinensis) — verde, preto, oolong, puehr, matcha — que encontrei meu apreço ao silêncio. E, com ele, o valor da presença. Calma alegria. Contemplação. Os presentes do chá são muitos e se desdobram com o tempo. Cria um espaço que permite dividir silêncio confortável com outras pessoas. É bonito. Espero poder te servir uma cumbuca num dia, espero que não muito distante.
Bela investigação. O que mais percebo é que a maioria ainda não cruzou o desejo de sentir o silêncio pra de fato viver ele!