Sociabilidade de baixa voltagem
Sobre perder e reencontrar a efervescência coletiva
Trilha sonora para esta playlist: Cross-Temporal Sync from Phase Shifting Index by Jeremy Shaw, Konrad Black, There In Spirit - essa música é a que melhor define o que senti escrevendo esse texto, afinal escrever sobre experiências é revivê-las novamente.
Por oito anos, fui a pessoa que gostava de acender o fogo pros outros. Toda semana eu reunia cerca de mil pessoas para dançar na pista de uma antiga igreja no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Da cabine do DJ, eu aguardava o momento ápice da noite, quando aquelas centenas de pessoas viravam uma massa só. As paredes de espelho ficavam embaçadas e suadas. Os disco balls giravam e fragmentavam a luz, transformando as pessoas em pontos borrados. Tudo piscava. Gritos, braços estendidos para o alto, gente se beijando na boca. Era uma explosão louca. O tempo entrava em suspenso. Em algum momento, eu me juntava à multidão para viver um pouco daquela catarse coletiva e me despedir. E então ia embora ainda no auge. Preferia assim. Saía flutuando sentindo uma felicidade exarcebada.
Era pré-Instagram. Todo mundo estava lá, presente, vivendo dentro do mesmo som. Ninguém gravando. Ninguém gerenciando a própria imagem, apenas um amigo fotógrafo contratado para registrar a noite. A pista era só a pista — e eu era uma das pessoas que a acendiam e depois saíam pela porta dos fundos.
Acabei abrindo uma agência de social media e fui trocando a noite pelo dia. Ainda saía para dançar, ainda saio. Adoro me perder na pista. Voltar para casa sem saber direito quem sou. Mas é cada vez mais raro.
Fui embora do verão ensolarado da Bahia para cair no inverno tenebroso de Berlim. Temperatura negativa, rua escorregadia, dias cinzas. O cansaço me deitou no sofá e de lá eu não queria sair. Na agenda, o festival CTM, motivo que me fez voltar ainda em janeiro para Berlim. Não iria falhar. Sábado à noite eu e meu marido seguimos para outro lado da cidade.
Chegamos ainda a tempo de assistir a um trecho do primeiro show. Pegamos uma taça de vinho, nos apinhamos entre as pessoas e ficamos ali, curiosos, assistindo a uma artista tocando com panelas. Luz bonita, salão lotado, música estranha. Mas o CTM é sobre isso. Música estranha.
Quando o show acabou, passeamos pelo salão e paramos na frente do novo palco. Uma mesa alta e estreita, um computador no meio. O produtor iraniano Sote entrou, se posicionou e começou a tocar. Me senti numa palestra com aquele homem de olhos fixos na tela, sem se mexer, enquanto atrás de nós as luzes já dançavam pela pista cheia. Cutuquei meu marido e sugeri ir pros fundos da sala.
Lá atrás, eu mal via o artista, mas uma luz vermelha começou a banhar todo o espaço. Parei, tomei um gole de vinho e fixei o olhar na luz enquanto deixava o som se expandir no meu corpo. Fechei os olhos. Quando me dei conta, eu estava nas ruas de Teerã sentindo batidas digitais cortantes com alma de música persa. Senti uma lágrima rolar. Tomei um susto. Por que eu estava chorando?
Relaxei os ombros enquanto as lágrimas desciam descontroladas. Não conseguia parar. Meu marido perguntou se estava tudo bem enquanto eu não queria me mexer, não queria perder nada daquilo. Apenas chacoalhei a cabeça, sequei as lágrimas, tomei outro gole de vinho e ri. O momento foi se fechando sozinho. Fui embora dentro do som.
Passei os dias seguintes pensando no choro. No quanto ele me pegou de surpresa. Contei para uma amiga e ela disse: "Lalai, agora entendi o que fui buscar no budismo." Eu sabia do que ela estava falando. Só não sabia que eu também precisava disso.
Passei quinze dias na Índia, um país que eu nunca quis visitar, mas do qual voltei querendo ficar.
Era minha primeira manhã em Mumbai. Me assustei com o barulho, a quantidade de gente, as vacas se movendo lentamente no meio do trânsito enquanto os carros desviavam, a falta de calçada. Comecei a ouvir uma música ao longe. Era terça-feira, meio-dia, um calor de rachar. Fui me esgueirando entre os carros para ver de onde vinham aqueles tambores. Vi o que parecia um bloco de carnaval com guarda-chuvas coloridos cheios de babados para proteger do sol, pessoas vestidas na mesma cor, sorridentes, maquiadas, bem arrumadas. Quando me alcançaram, algumas mulheres vieram na minha direção, sorriram e me puxaram para dentro da festa. Fui sendo levada para o meio e entendi que tinha sido absorvida por um casamento de estranhos. Passaram brilho no meu rosto, se espremeram à minha volta, tiraram foto e foram me carregando junto com o cortejo. Durante quase uma hora, dancei pela rua suja com pessoas cujos nomes nunca soube, numa celebração que não era minha, mas que, de alguma forma, também era.
Já em Rishikesh, atravessei a ponte Ram Jhula, com seus 230 metros de altura, tão lotada que sentia a estrutura tremer. Lá embaixo a água verde-esmeralda descia apressada. Me desviei dos macacos e segui o movimento das pessoas até o Sivananda Ashram. A tarde caía. Sem saber bem o que ia acontecer, sentei no chão frio do ghat, a escadaria de pedra que desce até o rio, e fiquei esperando. Então homens vestidos com batas vermelhas e cinturões dourados entraram enfileirados, segurando uma lamparina com fogo no alto. As pessoas foram se aglomerando, hipnotizadas pelo fogo dançando em círculos enquanto mantras eram entoados. O público batia palmas, cantava, soltava flores no rio. Comprei uma flor, soltei no rio com uma vela, bati palmas e me juntei na festa que deu início depois da cerimônia.
Na maioria das grandes cidades do mundo pagamos ingresso para talvez sentir algo perto disso. Na Índia acontecia na rua, toda tarde, sem avisar.
No Carnaval de 2024 no Rio, eu acordava às 6 horas da manhã, pegava um táxi e seguia para o morro. Uma hora no trânsito, ansiosa, seminua, o calor já invadindo tudo. Às 7 horas encontrava o grupo. Cerveja na mão, tambores batendo forte e a gente só seguia. Suando. Cantando. Dançando. Sem espaço. Todo mundo comprimido, junto, pele na pele. Nas ruas mais estreitas, pessoas em cima da laje com mangueira dando banho na gente. Era impossível sair, então tinha que seguir o ritmo, até chegar na praça com espaço para respirar. Pegar outra cerveja gelada. Às 9 horas da manhã.
O dia mais intenso e bonito foi seguir o Cordão do Boi Tolo. Às 7h30 da manhã já estávamos invadindo as ruas cariocas, comprando bebida para os músicos, dançando, afunilando, alargando, indo. Você não para. Acha que vai desmaiar. Levanta. Encontra amigos. Abraça. Um fuzuê que não tem fim. Quando o ápice chegou, estávamos todos na frente do Túnel do Pasmado. O som se multiplicando nas paredes, a luz mudando, milhares de corpos suados, sem ter para onde fugir. Parecia que o mundo ia acabar e era exatamente isso que a gente queria. O corpo se dissolve em algo maior e você sai do outro lado sem saber direito quem é.
Só que em algum momento parei de procurar essa sensação. A pandemia, a mudança de país, os anos gerenciando agenda e imagem foram me deixando entorpecida. Os festivais de música, que eram meu vício, meu rito, foram ficando raros quando a grana apertou. Não sumiu por completo, mas foi ficando mais difícil de alcançar.
Existe um nome para isso
O sociólogo francês Émile Durkheim chamou de efervescência coletiva o fenômeno que observou em rituais de povos aborígenes australianos no início do século XX: quando nos reunimos para dançar, cantar e celebrar juntos, a consciência individual se dissolve e nós experimentamos algo que percebemos como maior do que nós mesmos.
A pergunta que Durkheim queria responder era simples: por que não basta estar sozinha? Por que precisamos, de tempos em tempos, nos dissolver num grupo?
A resposta dele foi igualmente simples: porque a vida cotidiana, sem esses momentos, “se arrasta pesadamente”. Os rituais coletivos não são entretenimento, são a recarga que dá sentido ao resto. Quando essa reserva não é reabastecida, ela seca. E quando seca, adoecemos literalmente.
Mais de cem anos depois, os psicólogos Bernard Rimé e Dario Páez confirmaram a tese de Durkheim. Quando sincronizamos os nossos corpos cantando, batendo palmas, dançando no mesmo ritmo, a fronteira entre o eu e o outro fica porosa. No pico dessa sincronia, ativamos sentimentos de reverência e sacralidade mesmo que não tenha nenhuma crença religiosa envolvida.
O choro no Sote foi um susto porque eu tinha esquecido que ainda sabia fazer isso e o meu corpo ainda guardava o caminho.
Continuo indo. Aparecendo porque é a única aposta que faz sentido — o corpo só lembra como se entregar quando está junto de outros corpos. Se eu apareço e você aparece, em algum momento a gente se esbarra na pista e lembra junto.
O que ainda quero entender é o que acontece quando o espaço existe mas você mudou. Quando temos todas as palavras para descrever o que sentimos por dentro, mas perdemos o jeito de nos dissolver em algo maior.
para continuar procurando:
🎧 música
Untrue. Burial, 2007. Catarse solitária, urbana, noturna.
Vespertine, Björk. Talvez o álbum mais íntimo dela. É a catarse que vem do sussurro, não do grito.
Uma menção honrosa a um dos momentos mais catárticos que já tive num show.
📚 livros
As Ondas, Virginia Woolf. Dissolução do eu em prosa pura. São seis vozes, nenhuma trama, só a consciência se desfazendo.
Amada, Toni Morrison. A catarse aqui vem do corpo antes de chegar na mente.
Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, Geoff Dyer. Sobre o que acontece quando a gente para de resistir e deixa um lugar, ou um momento, tomar conta da gente por completo.
O Ano do Pensamento Mágico — Joan Didion. Sobre perder o chão e continuar de pé.
🎬 filmes
Sirāt, Óliver Laxe, 2025. A cena da rave na abertura é uma das mais bonitas e intensas que assisti no último ano. A trilha sonora é lindíssima, produzida pelo Kangding Ray.
A Grande Beleza, Paolo Sorrentino, 2013. Mas ninguém ganha da cena da festa na abertura desse filme.
Climax, Gaspar Noé. Desconfortável, aqui é sobre o coletivo que vira pesadelo.
🖼️ artes visuais
Phase Shifting Index, Jeremy Shaw: Sempre que preciso de um momento catártico para me colocar em pé, eu vou até o Hamburger Bahnhof para ver esta obra.
As Seen Below - The Dome, James Turrell: A primeira vez que vi uma obra do Turrell ao vivo foi em Naoshima. Chorei pela obra, pelo Japão, pela primeira vez, por tudo misturado. Hoje tenho a sorte de ter uma instalação dele perto de casa para voltar quando preciso. No dia 19 de junho, o ARoS Aarhus Art Museum, na Dinamarca, inaugura o maior Skyspace já feito pelo artista, onde a luz dissolve as bordas entre o artificial e o natural, o dentro e o fora. Para quem estiver na Europa no verão, vale o desvio.
Bells for Peace, Yoko Ono: Desde os anos 1960, Yoko Ono usa o sino como instrumento de paz coletiva traduzindo a ideia de que o gesto compartilhado tem mais poder do que qualquer manifesto. Na performance de encerramento da exposição Dream Together na Neue Nationalgalerie, mais de 5 mil pessoas tocaram sinos juntas num domingo ensolarado em Berlim. Eu era uma delas. Chorei, enquanto ao meu redor, senhorinhas de 80 anos tocavam seus sinos, dançavam e choravam comigo.
💌 vizinhança [extra]
Um projeto artesanal sobre os entre-lugares da vida imigrante.
Uma ode ao amor profundo que temos pelas coisas que nos interessam. - Assisti Columbus e só confirmou a beleza que o texto diz que ele tem.
Enquanto você encerra a leitura dessa newsletter, coloca o IKIGAI da Nadia Struiwigh para tocar. O álbum foi produzido em Berlim após a morte repentina do pai dela. Não é uma obra sobre perder, é sobre encontrar de novo a razão de estar aqui. Será lançado na íntegra nesta sexta-feira.





<3
é absolutamente prazeroso ler você