Techno enquanto o céu pega fogo
Quarenta mil pessoas, trinta e oito graus e o fim do mundo adiado
Trilha sonora para esta edição: set do Gerd Janson para sentirem a energia que rolava no momento em que tudo aconteceu.
Se anunciassem que o mundo ia acabar, o que você carregaria com você?

O Gerd Janson tocava para uma multidão que suava coletivamente, abanando o leque, espirrando água nas pessoas, tomando goles largos de álcool, abrindo garrafas de espumante.
O som então parou. De um alto-falante saiu uma voz feminina, num tom calmo demais para o que dizia. Ela pediu para evacuar a área e seguir para o camping por conta de uma tempestade.
A música foi sendo desligada num efeito dominó dos mais de trinta palcos espalhados pelo antigo aeroporto militar. O barulho contínuo deu lugar a um silêncio que eu não tinha vivido desde que cheguei ao Fusion, no dia anterior. Foi um rápido momento de alívio em meio a um possível risco que eu ainda não entendia.
O festival inteiro seguiu calmamente para os portões de saída com os olhos no céu, procurando sinais de tempestade. As perguntas pulavam no ar: 'Que tempestade?' 'O céu está azul!' Quando olhamos para trás, vimos a fumaça branca e densa avançando devagar em nossa direção.
O calor, que eu só tinha vivido em bloco de carnaval no Rio de Janeiro, era algo quase inédito para a maioria ali. O tempo seco, a grama, as árvores, os palcos de madeira, tecidos, sistema de som espalhado por todos os cantos, luzes, fios elétricos. Algo estava fora do lugar.
Dos alto-falantes, a voz feminina continuava. Calma, pausada, como quem anuncia o embarque do voo das duas da tarde. Em alemão, depois em inglês, depois em alemão de novo. Foi meio perturbador ser evacuada com tanta gentileza.
Passei no banheiro, enchi minha garrafa d’água e voltei para o camping. Na dúvida, eu não queria viver minhas últimas horas com as necessidades básicas me sufocando. Encontrei o meu grupo de amigos, ligamos o som e ali ficamos até alguém do festival chegar e pedir para sairmos imediatamente da área gramada.
Peguei uma garrafa de vinho, dois copos, uma cadeira de praia. Cada um do nosso grupo pegou coisas diferentes. Uns escolheram comida; outros pegaram passaporte, bebida, água, caixa de som, a chave de casa. O meu marido pegou água, a chave do carro e tratou de calçar os tênis, deixando os chinelos para trás. Eu segui me arrastando num par de Havaianas imundo.
Chegamos no asfalto, sentamos, mas também não era possível ficar ali. Era necessário deixar a rua livre. Aos fundos, vimos ônibus se enfileirando enquanto alguém num alto-falante pedia para continuarmos andando até um grande campo de concreto ao lado do estacionamento.
Quarenta mil pessoas andando em direção a uma grande área descampada, como se a evacuação fosse um bloco de carnaval sem o trio elétrico. Caixas de som portáteis competiam umas com as outras, conversas altas, alguém gargalhando à toa. O perigo estava atrás; a festa ainda acontecia na frente.
Sentamos próximos a um portão fechado e aos banheiros químicos. Era melhor prevenir. Do outro lado, a tenda branca onde deveríamos estar, mas na qual nunca chegamos.
Encostamos na grade que dividia a multidão, abrimos nossas cadeiras de praia, eu abri a garrafa de vinho, minha amiga tirou um cantil com uísque e ficamos assistindo à fumaça branca cobrir o céu azul-cobalto. Sentíamos agora o cheiro da fumaça e as cinzas da queima caíam como flocos espessos de neve. Os olhos ardiam um pouco. Ao lado, um grupo dançava techno em volta de uma caixa de som portátil. Um pouco mais adiante, outro grupo fazia tai-chi-chuan em círculo, lento, os braços subindo enquanto a fumaça descia.
Ali, sentados sem ter o que fazer a não ser esperar, divagamos sobre o que poderia acontecer.
Sentada na cadeira olhando para os meus pés descalços e sujos, eu pensava no fim do mundo. Será que o fogo chegaria mesmo ao camping? Como a gente ia embora? Teríamos que largar tudo para trás? Será que eu tinha deixado alguma peça de roupa de que gosto muito e que deveria ter trazido comigo? Brindamos enquanto inventávamos teorias sinistras sobre o que poderia acontecer. Enquanto isso, eu tomava meu vinho branco quente achando que era o melhor dos últimos tempos.
Em quase dois dias intensos com um grupo de mais de vinte pessoas, era a primeira vez que nós cinco nos reuníamos a sós. Foram três anos tentando fazer essa viagem juntos e ali, estávamos rindo. O mundo não acabou.
Esta foi uma das várias aventuras vividas no Fusion - um dos maiores festivais de música e arte da Alemanha, que acontece na Alemanha desde 1997. Ainda estou processando os cinco dias em que acampei por lá. O spoiler: foi um dos festivais mais instigantes e melhor produzidos a que já fui. A próxima edição da Espiral vai falar sobre a experiência e a masterclass de produção que o evento entrega.


Incrivel, não era chuva e sim queimada…levaria também um vinho, musica e água…ah, a chave do carro…
Poderia ser uma descrição da cena de Cuiabá na década dos anos 2000.