The Infinite Now: O sono como escuta
Festival em Berlim ofereceu 30 horas de música, cama e escuridão. Foto capa por Karl Magee
Trilha sonora para esta edição: Sunwise, da Brìghde Chaimbeul
The Infinite Now, um festival em que dormir é parte do programa
Acordei e a Kali Malone estava tocando. Notas espaçadas, longas, pareciam estar dentro do meu sonho. Eu estava exatamente onde ela queria que eu estivesse. Foi nesse instante, deitada numa cama dura de camping nos fundos do palco principal do Kraftwerk, que entendi o que o The Infinite Now estava propondo: o sono não era uma interrupção da escuta, mas uma condição dela.
Os festivais Berlin Atonal e Unsound se uniram para programar trinta horas ininterruptas de música. O ingresso incluía uma cama. Pulseirinha para entrar e sair quantas vezes quisesse, placa com o nome para reservar lugar e uma mini-luminária de cabeceira. Centenas de camas foram espalhadas pelas laterais do palco, ocupando mais da metade do andar; um dos corredores foi ocupado por redes, as mais disputadas. O programa não pediu resistência, pediu rendição completa. E eu me rendi.
O prédio onde aconteceu carrega muito bem a proposta. O Kraftwerk tem 8 mil metros quadrados de concreto, sem uma única janela, e é uma ex-usina que abastecia a Berlim Oriental. Um galpão feito para gerar força bruta, agora abriga o seu oposto: uma escuta sem esforço.
O festival não chegou a ter ingressos esgotados. Mas quem foi, participou de algo que não cabe no formato padrão de festival, por isso não foi intitulado como um.
Cheguei por volta das nove da noite de sábado. Vi gente entrando com mala, colchão inflável, travesseiro próprio, preparada para viver ali por trinta horas. O lugar já estava cheio e foi difícil encontrar uma cama livre. Em várias, gente enrolada em edredons. Em outras, mochilas deixadas à própria sorte. Larguei a mochila, a plaquinha e a luminária em uma cama bem aos fundos, virada para o palco, e fui dar uma volta. Lá atrás, longe da movimentação do palco, só chegava o que saía das caixas de som. Era um cenário novo que eu nunca tinha visto num festival. Um quase silêncio.
Voltei pra frente para assistir o novo show da Caterina Barbieri. Vestida com uma blusa pesada, repleta de ornamentos florais, ela parecia uma gladiadora. Seu vocal lírico se dissolvia nas texturas sonoras, enquanto a luz de MFO transformava o espaço inteiro em um ambiente radiante, tanto que fugi para ver o show dos fundos do palco e apreciá-la vinda de todos os lados.
Dali em diante, os BPMs só diminuíram. Os smallpipes da escocesa Brìghde Chaimbeul soltaram drones atmosféricos que começaram a alimentar um corpo já pedindo descanso.
Paul Jebanasam, tocando “mātr”, foi o convite final para se render a drones profundos e lentos que ofereciam uma viagem cósmica. Era melhor ouvir deitada. A curadoria não tinha montado uma noite de festival, tinha preparado o público para dormir. A arquitetura sonora seguia a do corpo. E, assim, aceitei o convite e me rendi na horizontal.
Eram quase três da manhã quando o vídeo de Lois Patiño e Xabier Erkizia começou a ser exibido no telão. Uma luz azul baixa iluminava os corredores agora esvaziados. O Kraftwerk estava gelado. Na cama ao lado, meu marido já dormia profundamente enrolado nos cobertores. À minha volta, centenas de pessoas dormindo com estranhos por todos os lados. Vozes do filme cortavam o silêncio, mas não demorei a ceder à cama. O som ainda atravessava o corpo, e isso bastava.
Acordei já pela manhã, achando que tinha ouvido a Kali Malone tocar dentro do meu sonho. As camas em volta ainda cheias. O Adam Wiltzie está prestes a entrar para revisitar o catálogo do Stars of the Lid com uma obra ironicamente intitulada “A Tired Reworking of Stars of the Lid For the Sleep Deprived”. O título já dizia tudo sobre o estado coletivo da sala.
Escovei os dentes, coloquei óculos escuros e saí daquela imensa escuridão. Lá fora, o sol ofuscava a visão. Tomei banho em casa, almocei, atravessei a cidade para voltar ao escuro. Esse foi o gesto mais estranho do meu fim de semana: abri mão de um dia de sol em Berlim, coisa rara o bastante para justificar suportar o inverno inteiro, para voltar a um galpão sem janelas.
O domingo estava mais movimentado. No térreo, começava a performance do Marginal Consort, projeto experimental japonês criado no início dos anos 90, que faz apenas um show por ano desde 1997. A banda se espalhava em quatro palcos, cada um posicionado num dos cantos do espaço. Um deles caminhava entre as pessoas tocando uma flauta. Outro batia em pequenos objetos espalhados sobre uma mesa. Foram três horas com quatro senhorzinhos japoneses de cabelos brancos tirando som de lugares inimagináveis - cartolina, água, arames, violinos construídos de outro jeito, fios, metais. Eles não tentam produzir música a partir dos objetos, eles exploram o som no lugar mais íntimo possível.
Andei entre os palcos, vi uma menina desenhando furiosamente num caderno, sentada no chão de frente para um dos músicos, enquanto outro rapaz esfregava a cabeça entre os joelhos de maneira um tanto frenética. Deitei num puff e, quando me dei conta, estava chorando, emocionada, com aquela sonoridade estranha e desconfortável.
Na noite anterior, eu tinha cruzado com um rapaz escrevendo num caderno e com uma mulher esparramada na cama, lendo um livro. Muita gente não estava “no show” no sentido literal. Estavam dentro do som, fazendo outra coisa: desenhando, lendo, escrevendo, deitadas, de olhos fechados. Em outros cantos, em compensação, as pessoas filmavam e fotografavam sem parar: o programa era visualmente intenso o suficiente para furar a habitual discrição berlinense com a câmera.
A cama, e o que ela autoriza, deu essa abertura: o programa como ambiente para habitar e não como espetáculo. A qualidade acústica fazia o resto. A música chegava com a mesma densidade de qualquer ponto do prédio, seja em pé na frente do palco ou enrolada num cobertor bem longe do palco.
Joy Guidry fez o show mais forte do domingo. Sentada em frente ao computador, segurando o fagote, suava e assoprava com os olhos fechados, quase em transe. Em algum momento, um discurso potente sobre liberdade se espalhou pelo Kraftwerk. Meio jazz, meio gospel, meio eletrônico. O tempo estava suspenso.
E então, Keiji Haino. Setenta e cinco anos, cabelos brancos, lisos, na altura da cintura, franja cortada reta no meio da testa, todo de preto, óculos enormes. Autodidata, ativo desde o começo dos anos 1970, com mais de 80 instrumentos no repertório, é considerado o poeta do ruído. Fez dois shows, o primeiro só de guitarra. Foi um dos shows mais barulhentos que já presenciei, o suficiente para espantar parte da galera da frente do palco. Ensurdecedor e fascinante. Ao meu redor, muitos japoneses emocionados, um deles, bem jovem também de cabelos lisos até a cintura, abraçava a caixa de som e batia o cabelo. Tenho tinnitus, então tive que recuar e fui ouvir o show a partir do bar, no andar intermediário. Mas quem ficou saiu chapado de som.
Se o Marginal Consort esticou o tempo em três horas sem pressa e sem querer chegar a algum lugar, Haino comprimiu: meia hora para testar o que o nosso corpo e ouvido aguentam. Os dois polos japoneses do festival ofereciam, no mesmo dia, duas relações opostas à escuta longa. Uma pediu entrega, a outra, resistência.
Voltei para esticar na cama e esperar o Actress, o único show de todo o evento em que dancei. Ele não facilita para ninguém: o techno sai quadrado, abstrato. Longe de ser uma experiência festiva, o Actress produz um som que desorienta e reorganiza a nossa escuta. Quando você acha que vai dar pista e começa a chacoalhar os ombros, ele quebra e vira outra coisa. Uma luz hipnótica circular parecia nos sugar em espiral para o canto do palco. Saí desmontada.
Fui embora antes do encerramento das 30 horas. A energia já estava no fim e era preciso preservar alguma coisa para conseguir sair andando.
O The Infinite Now não inventou o concerto de sono. O Max Richter já fez isso, e antes dele, nos anos 70, Pauline Oliveros desenvolveu o deep listening, uma escuta que acontece com o corpo, melhor ainda quando ele está deitado, a respiração está lenta e a gente consegue se entregar totalmente ao som. O que Atonal e Unsound fizeram em 2026, nesse galpão sem janelas da antiga usina, propondo trinta horas com cama incluída, levou essa ideia ao extremo. Uma proposta que vai na contramão do que os festivais costumam propor: contra a economia da atenção, contra o show feito para virar conteúdo, contra a ideia de que ir a um festival é resistir.
Aqui se pedia o contrário: para se render. Entregar o corpo, o tempo e a escuta.
Saí com a sensação de que tinha passado por algo que não cabe inteiro numa resenha. Trinta horas para concluir que o que mais me marcou foi o instante de quase nada: acordar com a Kali Malone tocando e perceber que eu estava exatamente onde ela queria que eu estivesse: dormindo.
Para mergulhar no silêncio
🎬 Memória, Apichatpong Weerasethakul: Uma mulher (Tilda Swinton) acorda com um som que só ela ouve. O filme inteiro é uma tentativa de escutar o que não tem explicação.
📖 Orbital, Samantha Harvey: Um dia completo na Estação Espacial Internacional, onde o silêncio é literal e a Terra é o que acontece lá fora.
🎵 All Life Long, Kali Malone: Órgão de tubos, harmônicos longos e o tempo que entra em suspenso.
📬 zensounds: Newsletter de Berlim dedicada a música ambiente e experimental. Para quem quer continuar nesse som depois de fechar essa edição.
✍️ Escuta como exposição: Jean-Luc Nancy me ensinou que escutar é se tornar vulnerável e por que isso ainda me assusta.













Preciso passar um tempo longo em Berlim.
Que chic <3