Sombra, água e cidade
Quem pode entrar na água?
🎧 Trilha sonora para esta newsletter: Invisible Cities II: Amara, by CCL
Abro a janela e o bafo quente se espalha por toda a casa. Com sorte, as duas árvores imensas que moram diante das minhas janelas oferecem afagos frescos entre um vento e outro. Os grupos de WhatsApp são tomados por um único assunto: para qual lago vamos no fim de semana?
Nunca fui a maior fã de ficar estirada no sol por horas, mas na última sexta-feira, me rendi à piscina. Sexta à tarde, sem muito para fazer, coloquei canga, protetor solar, um litro de água, livro na bolsa. À uma e meia da tarde, eu atravessava o agradável caminho dentro do parque, que sai de uma rua ardida pelo sol, e vai até a entrada da piscina. O parque está ainda vazio e fresco.
Pedalo tão rápido que parece que a piscina vai fugir. Chego lá e dou de cara com uma fila imensa na entrada, dificuldade para estacionar a bicicleta e era apenas uma sexta-feira em pleno horário de almoço. Corto a fila porque, malandra que sou, comprei o ingresso online. Mostro o documento e entro. Lá dentro, gritaria e gargalhadas se espalham por um campão verde cercado de árvores onde há uma piscina de 50 metros, uma plataforma de saltos ornamentais com trampolim, um grande toboágua sinuoso - cuja fila, formada em sua maioria por adultos, se estende até a saída da piscina - e uma piscina infantil. É também nesta área que vive uma das maiores populações de abelhas selvagens raras do bairro de Mitte. Mas hoje elas não estão presentes.
Corpos estirados na grama ocupam cada pedaço de sombra. A fila da lanchonete rivaliza com a do toboágua. Mulheres de todas as idades fazem topless1, enquanto um grupo grande de mulheres muçulmanas, cobertas da cabeça aos pés, dividem o mesmo espaço sem se incomodar. Carrinhos de bebê cruzam os gramados, crianças correm em todas as direções, muita gente tem o rosto enfiado num livro, outras bebem cerveja em latas de meio litro ou se lambuzam na gordura da batata frita. A fila do chuveirão é desesperadora.
Encontro meu canto perto de uma árvore. Se o sol apertar demais, basta recuar alguns centímetros. E assim vou passando a tarde toda, esticando a toalha um pouquinho para trás a cada hora. Me distancio aos poucos da piscina até encostá-la perto da cerca que separa a piscina do parque Humboldthain.
A tarde avança, o sol segue alto, as pessoas não param de chegar. Olho para o céu acima da minha cabeça, vejo o azul vazando entre o verde das árvores. Me espreguiço, bocejo, recuo pensando que uma soneca ali seria uma boa, mas levanto e decido ir embora.
Junto as coisas espalhadas como se estivesse na sala de casa, olho para o livro que apenas fez volume na bolsa, busco a parte de cima do biquíni que está secando numa árvore que já não está mais tão perto de mim.
As filas parecem aumentar por todos os lados, assim como a gritaria e a quantidade de gente dentro d’água. Ando em direção à saída, vejo um grupo de rapazes sentados enfileirados numa mureta, todos vestindo apenas shorts, cada um de uma cor. Acho a cena bonita, o que me faz sacar o celular da bolsa e tirar uma foto antes de sair. Na área externa, uma outra fila se alonga entre as copas de árvores e as bicicletas. Tenho dificuldade em encontrar a minha que está espremida entre duas, dessas com banco para bebê, o que dificulta a saída.
Pedalo suando para casa, o ar ainda mais abafado e agora só penso no frescor do meu apartamento e numa taça de vinho para assistir o pôr-do-sol da janela da sala. Finalmente chegou o verão!
O que fazer com um rio no meio da cidade?
Ontem, dia 20 de junho, meu Instagram foi tomado por fotos e vídeos de pessoas nadando no Rio Spree, em frente à Ilha dos Museus.
O sábado estava mais quente que o normal com o termômetro batendo nos 32ºC. Enquanto muita gente buscava um lugar para esticar o corpo no sol, outras procuravam sombra e água para refrescar. Ir ao lago durante o verão é um dos programas favoritos de quem mora aqui.
Mas um dos motivos pelo qual a imagem das pessoas nadando no Rio Spree chamava atenção é porque nadar ali, em pleno centro histórico de Berlim, é proibido desde 1925.

O mergulho é parte de um protesto organizado pelo Flussbad Berlin, projeto urbano fundado em 2012, que propõe devolver o rio à cidade.
A ideia é transformar o Spreekanal, o braço histórico do Spree que contorna a Ilha dos Museus, em uma área pública de banho. O plano prevê sistemas naturais de filtragem da água, recuperação ecológica do canal e um longo trecho onde as pessoas poderiam nadar no coração de Berlim.
Berlim é uma cidade cercada por água, mas ainda assim, no centro da cidade, a água existe principalmente como paisagem. Você a observa das margens, das pontes ou dos barcos turísticos, mas não pode entrar nela.
O Flussbad argumenta que, em uma cidade cada vez mais quente, o acesso à água não deveria ser apenas uma questão de lazer, mas também de infraestrutura urbana. Ao mesmo tempo, propõe uma relação mais direta com o centro histórico, transformando um cenário monumental em um espaço ocupado pelas pessoas.
Nem todo mundo concorda. As autoridades ambientais continuam apontando problemas de qualidade da água, especialmente após chuvas fortes, quando o sistema de esgoto pode transbordar para o rio. Por isso, o banho continua proibido. Mas, 80% do tempo, entre maio e outubro, a água está boa para nadar de acordo com medições feitas pelo próprio Flussbad.
E é justamente essa proibição que os organizadores vêm questionando com uma série de protestos em que as pessoas entram na água.
O slogan é “Baden bis zum Abwählen”, que significa algo como “Nadar até a saída pelo voto”. As manifestações começaram no dia 20 de maio, quando fez 101 anos desde a proibição, e seguem acontecendo todo dia 20 até setembro, ecoando o dia das eleições que definem o futuro de Berlim.
Enquanto Berlim briga para entrar no seu rio, eu penso no Rio Tietê.
Topless em piscinas públicas é permitido oficialmente desde 2023.




Terminei o texto pensando em como a cidade muda quando a gente pode habitá-la de verdade.
Esse cenário não vai mudar, à população da Europa vai precisar cada vez mais dos rios…aliás, melhor que o piscinão cheio de gente barulhenta e filas intermináveis