Todo mundo está ouvindo músicas de 2016 - e eu sei por quê.
Como perdemos a catarse coletiva e a crença de que algo vai melhorar
Trilha sonora para esta newsletter: As minhas músicas mais tocadas em 2016
Está todo mundo falando sobre 2016 como se fosse um ano mítico, uma espécie de pico emocional da internet, da música, da vida social. Tenho pensado bastante a respeito, porque às vezes acredito que 2016 foi um dos melhores anos da minha vida, mas também foi um ano de transição.
Este texto começa com uma memória pessoal daquele ano e se transforma em uma análise sobre drop x loop na música como metáfora de como perdemos a esperança coletiva de que as coisas vão melhorar.
Vivendo um sonho
Em 2016, uma marca me patrocinou para eu realizar um sonho que, até então, eu nem sabia direito como dizer em voz alta sem parecer exagerada: dar a volta ao mundo visitando festivais de música durante um ano. Foram vinte festivais e alguns países que eu nunca tinha pisado, como África do Sul, Singapura, Austrália, Japão, Polônia e Indonésia. Passei parte de 2016 vivendo em uma sucessão de cidades temporárias, uma após a outra, como se fosse possível viver eternamente nesse estado de montagem e desmontagem.
Festivais sempre foram o lugar onde eu me sinto mais em casa. Cidades temporárias onde ninguém sabe quem você é, onde você pode ser quinze versões diferentes de si mesma em quinze países diferentes sem precisar justificar nenhuma delas. Às vezes eu estava com meu marido ou com amigos que o patrocínio me permitiu levar. Às vezes escolhi estar sozinha. Eu sentia que era o máximo de liberdade - e felicidade - que eu poderia viver, e era também uma forma eficiente de não ficar tempo suficiente em nenhum lugar para que algumas questões pessoais criassem raízes.
Voltei para o Brasil diferente, mas sem ter tido uma grande epifania. Foi como passar um ano suspensa no tempo. Eu estava cansada, mas ótima e inspirada. Passei 2016 vivendo um sonho, o que me deixou uma pergunta chata: eu conseguiria ser tão feliz quanto fui naquele ano? E mais: eu quero? Ser feliz o tempo todo é também exaustivo.
A felicidade que eu sentia não vinha necessariamente da música que tocava nos palcos principais. Eu nunca fui muito de EDM ou drops gigantes. Eu gravitava sempre para os palcos alternativos, para o indie e para o techno, em direção à música que nos envolve ao invés de nos fazer explodir. Mas mesmo assim, havia algo especial no ar de 2016. Uma sensação coletiva de que estávamos todos esperando por algo.
Achei que essa pergunta fosse só minha. Um problema de expectativas calibradas muito altas, de ter esgotado a cota de felicidade que me cabia. Mas quando olho para a música que dominava as pistas e as paradas de sucesso naquele ano e comparo com o que domina agora, percebo que não era só eu. Era todo mundo processando a mesma coisa. A diferença é que em 2016 ainda acreditávamos que depois da tensão viria o alívio.
Dez anos depois, cansamos de esperar.
Como a música desistiu da promessa de que algo vai melhorar
Em 2016, a internet colocava todos na mesma sala. Todo mundo assistia Game of Thrones ao mesmo tempo. Todo mundo comentava a mesma série, o mesmo meme, o mesmo escândalo político. O Instagram ainda era cronológico: a gente via o que nossos amigos postavam, na ordem que postavam. O Twitter era caótico, mas compartilhado, a gente conversava ou discutia.
A música que dominava as pistas tinha a mesma estrutura, um começo que insinuava, um meio que acumulava energia, e o momento aguardado: o drop. The Chainsmokers (“Closer”), Calvin Harris ("This Is What You Came For"), Martin Garrix (“In The Name of Love”), DJ Snake (“Let Me Love You”), estilos diferentes dizendo a mesma coisa: aguenta mais um pouco, segura essa tensão, que daqui a pouco explode.
Quando o drop chegava, todo mundo pulava e gritava junto numa deliciosa catarse coletiva. O drop era uma pequena promessa de mundo: vai ser difícil agora, mas daqui a pouco melhora.

E então, a internet se fragmentou. O algoritmo aprendeu que a gente não precisa ver o que todo mundo vê - a gente precisa ver o que nos mantém rolando. O Instagram tentou virar TikTok, tudo virou feed infinito de micro-nichos. Não existe mais “todo mundo está assistindo” porque cada um está assistindo uma coisa diferente, numa ordem diferente, num momento diferente.
A música acompanhou.

O verão de 2025 foi, segundo dados do Spotify, o menos dançável e de menor energia da última década. As músicas que dominaram não foram hinos de festival, mas confissões introspectivas. Artistas como Alex Warren, Ravyn Lenae e sombr explodiram em nichos específicos do TikTok - provavelmente você nunca ouviu falar deles, a não ser que o algoritmo tenha decidido que eram exatamente para você.
Grande parte do que domina os charts e os algoritmos agora não é mais construída em torno do drop. São loops. Amapiano, afrohouse, jersey club - até o pop mais comercial absorveu essa estética hipnótica de padrões que se repetem com camadas que entram e saem sem grande anúncio. Isso nem é novo: o techno sempre foi assim, o drum'n'bass sempre teve seu próprio jeito de construir tensão. Mas agora é o mainstream que desistiu do drop. Ninguém espera algo acontecer. A gente entra e fica ali, nadando no loop.
Não estou dizendo que drops desapareceram completamente. O Hyperpop (100 gecs, SOPHIE), por exemplo, tem drops irônicos, hiper-saturados. As cenas como dubstep, hardstyle e bass music ainda trabalham com tensão e explosão. Mas o mainstream, o que domina TikTok, os charts, as playlists de maior alcance, abandonou a estrutura do drop em favor do loop.
O drop de 2016 era sensação pura: o frio na barriga, a adrenalina, o corpo reagindo visceralmente ao momento. O loop de 2025/2026 é textura: algo que envolve e a gente habita. A gente não sente o loop chegando, a gente percebe que já está dentro dele.
O loop traduz perfeitamente nosso momento. Ele não promete nada além de continuidade — porque paramos de acreditar em promessas. Não oferece catarse, mas oferece ritmo — porque aprendemos a viver sem resolução. Não espera que a ansiedade se resolva, apenas cria um espaço onde ela pode existir indefinidamente. É música para uma geração que desistiu de esperar que algo melhore.
Checando a minha playlist de 2016, muito baseada nos line-ups dos festivais que visitei, me dei conta de que sempre estive no loop. Enquanto o pop mainstream explodia em drops, eu já gravitava para música hipnótica, em camadas, sem grandes explosões. Será que eu já sabia, de alguma forma, que depois de 2016 não viria nada melhor? Será que eu queria esticar a sensação do que estava sentindo, fazer durar, permanecer naquele estado em vez de esperar por um próximo pico que talvez nunca chegasse? Ou será que ‘não esperar’ sempre foi parte de quem sou?
O algoritmo não quer que a gente espere. Quer que a gente consuma agora, dê scroll, próximo, próximo, próximo. A paciência da catarse virou ineficiente.
O drop exigia um risco compartilhado: tínhamos que estar lá no momento certo ou perdíamos tudo. A gente esperava juntos. O DJ podia errar o timing, podia escolher o drop errado, a gente poderia não estar na vibe. Mas quando funcionava - quando todo mundo pulava junto no mesmo instante - era sempre transformador.
O loop é mais generoso. Permite que a gente entre e saia quando quiser, no próprio ritmo. Não exige um compromisso total. Não tem risco de perder o momento porque não existe “o momento”.
Ganhamos conforto, perdemos fricção.
Tem gente que prefere assim. Que se sente mais livre sem a pressão de “estar no momento certo”, sem ter que gritar junto com estranhos só porque o sintetizador mandou. Que acha o drop uma forma de manipulação coletiva, de nos forçar a sentir o que não estamos sentindo. Para essas pessoas, o loop é libertador: finalmente podem existir na música sem performance, sem precisar fingir um êxtase que não estão sentindo.
Eu entendo. Mas confesso que sinto falta do risco. Sinto falta da explosão.
Isso não aconteceu só na música. Aconteceu em como a gente frequenta os festivais. Em 2019, 8% das pessoas iam sozinhas a festivais. Em 2025, esse número saltou para 29%. A razão mais citada na pesquisa? Falta de companhia que compartilhe o mesmo gosto musical.
Não é que as pessoas estejam mais sozinhas - é que a experiência coletiva virou soma de indivíduos, não de fusão. Cada um experimenta a música no próprio ritmo interno, mesmo cercado de milhares. Ainda dançamos, mas diferente.
E não é só sobre como dançamos. É sobre o que esperamos da vida. Em 2016, dançávamos juntos esperando o mesmo momento - porque ainda acreditávamos que o futuro traria algo melhor, coletivamente. Em 2026, dançamos sozinhos dentro da multidão - porque aprendemos que não existe 'o momento', só a continuidade. Cada um no seu próprio loop.
Estamos mais conscientes dos limites, mais no controle, mais protegidos. O corpo não precisa mais estar inteiro na dança. Podemos dançar mexendo só os ombros, balançando a cabeça, ficar no celular filmando e ainda estar “dançando”.
2016 era melhor?
Tem bastante nostalgia no ar quando lembramos de 2016 com aquela expectativa compartilhada, o corpo suando colado em outros corpos, gritar junto no auge da música, sorrir para estranhos. Era uma forma de viver uma utopia temporária: por alguns minutos, todo mundo queria a mesma coisa ao mesmo tempo.
Mas será que era mesmo tão coletivo quanto a gente lembra?
2016 foi o ano do Brexit, da eleição do Trump, do impeachment da Dilma. A polarização já estava instalada e as rachaduras já eram visíveis. Talvez os drops fossem justamente a negação disso. A tentativa de criar um momento onde todos concordavam, onde não havia divergência possível, porque quando o sintetizador explode, não tem discussão, só o corpo reagindo.
Mas a promessa já estava rachando por dentro.
2016 foi o ano em que o Avicii anunciou sua aposentadoria dos shows ao vivo. Ele tocou no Ultra pela última vez em março daquele ano, exausto, já mostrando sinais da pressão insustentável que levaria à sua morte em 2018. O documentário “Avicii: True Stories” captura esse momento: um artista no topo da era do drop, literalmente incapaz de aguentar mais um build-up. Enquanto milhares de pessoas esperavam pela explosão na pista, o cara que construía essas explosões estava entrando em colapso.
O loop é mais honesto sobre mostrar o nosso momento atual. Ele não promete nada além de continuidade. Não oferece catarse, mas oferece ritmo. Não resolve a ansiedade, mas cria um espaço onde ela pode existir sem precisar de solução imediata. É música para quem aprendeu que a vida não é uma narrativa de três atos, mas um padrão que se repete com variações sutis. Ou, talvez, para quem desistiu de acreditar no futuro.
Talvez seja isso que estamos buscando quando voltamos para as playlists de 2016: não a música que tocava, mas a sensação de que ainda valia a pena esperar. Em 2016, dançávamos esperando que algo mudasse. Em 2026, dançamos sabendo que já mudou - e talvez por isso voltamos a ouvir aquelas músicas, tentando lembrar como era acreditar no futuro.

Se você quiser mergulhar mais a fundo nessa história: assista 'Avicii: True Stories' para entender a pressão da era do drop, leia 'Energy Flash' de Simon Reynolds para um panorama completo, e 'Todo DJ Já Sambou' de Claudia Assef para a cena brasileira.
🎬 DOCUMENTÁRIOS
“Avicii: True Stories” (2017, Netflix) - Mostra a pressão da cena EDM, exaustão mental e o ritmo insustentável. Essencial para entender o lado escuro do auge do drop.
“What We Started” (2018) - Carl Cox e Martin Garrix contam três décadas de música eletrônica e a popularização do EDM.
“EDM: From Underground Raves To Sold Out Festivals” (2021, BBC) com Annie Mac - A evolução do DJ de clubes pequenos para estádios.
“Drum & Bass: The Movement” (2020) - 20 anos de D&B, de 1996 a 2016
“We Call It Techno!” - Sobre a cena recém-criada do techno na Alemanha pós-queda do muro.
🎥 FILMES
“Eden” (2014) - Cena house parisiense dos anos 90
“It’s All Gone Pete Tong” (2004) - DJ que fica surdo
“We Are Your Friends” (2015) - Zac Efron como DJ aspirante (criticado mas retrata a cena)
“Febre Psicodélica” (filme brasileiro) - Rave culture, inspirado no Universo Paralello
📖 LIVROS
“Energy Flash: A Journey Through Rave Music and Dance Culture” - Simon Reynolds (essencial, amplo panorama desde Disco até Big Beat)
“Todo DJ Já Sambou” - Claudia Assef sobre a história dos DJs no Brasil, edição atualizada 2017 com Alok e Vintage Culture.
“Deslumbre” (2025) - a Gaía Passarelli reconstrói décadas de cultura de pista no Brasil, do Espaço Retrô ao after-hours Hell's Club, mostrando quando a música era mais que gosto, era uma forma de existir no mundo.
“Bate-Estaca: Como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo” (2024), Camilo Rocha documenta 40 anos de música eletrônica em SP, do underground dos anos 80 aos megafestivais.
“Festa Infinita: O Entorpecente Mundo das Raves” (2009) - Thomas Chiaverini faz uma investigação jornalística sobre as raves no Brasil.
📝 ARTIGOS / PESQUISAS
“Socialização nos Festivais de Música Eletrônica: Uma Solidão Acompanhada” - Artigo acadêmico de 2023 sobre a mudança na experiência coletiva.
“Como as redes sociais influenciam a produção musical e as próximas tendências” - Gomus (2025) - Sobre TikTok e a música que viraliza.
“A Influência das Redes Sociais na Cultura Pop” - UMB Digital (2025) - Viralização e cultura do consumo imediato.
Agora me conta: o que tocava no repeat em 2016? E o que você tem ouvido em 2026?





Aproveitei esse hype de 2016, para revisitar o meu ano de 2016, nas memórias e fotografias. Como minha filha nasceu em dezembro de 2015, 2016 foi um ano muito dedicado a ela (isso eu lembrava), mas o legal que redescobri muitas coisas legais nesse ano.
Naturalmente, não teve balada, nem show nem festival, mas foi um bom ano.
Gostei muito do texto e de você ter trazido inspirações e fontes. Realmente faz sentido essa mudança de estilo!