Sentir falta de casa quando você está em casa
Berlim, São Paulo, trânsito, Platão
🎧 Trilha sonora para esta edição: “Tragic Magic”, de Mary Lattimore & Julianna Barwick, um álbum bonito e calmo para ajudar a colocar os pensamentos em ordem.

Passei quatro meses em São Paulo e voltei totalmente desorientada para Berlim, como se o chão que eu pensava conhecer tivesse se movido alguns centímetros para o lado e nada se encaixasse como antes.
São mais de seis anos morando em Berlim, seis anos construindo uma vida, uma rotina, um novo ritmo, um novo grupo de amigos, uma forma de estar no mundo. Visitar o Brasil é sempre reencontrar o lugar de onde saí, matar a saudade, falar sem me preocupar com a tradução, cair de novo num ritmo que o meu corpo ainda reconhece. Mas nesta última viagem foi como voltar para dentro da caverna.
No mito da caverna de Platão, tem um grupo acorrentado desde sempre, vendo só as sombras na parede. Para eles, esta é a realidade, porque é o único mundo que conhecem. Quando um deles se solta e sai, a luz incomoda, confunde, desorienta os olhos acostumados com a penumbra. Aos poucos a percepção se expande e o mundo ganha outra dimensão. Quando ele volta, já não consegue ver as sombras da mesma forma.
Eu saí da minha caverna há seis anos. Morar fora sempre nos desloca de maneiras que não esperamos, porque de repente percebemos que a forma como crescemos vendo o mundo - o que é normal, o que é certo, o que é possível - é só uma versão entre tantas outras. E aí voltamos e percebemos que as sombras mudaram de forma, ou que nós mudamos, ou que os dois aconteceram ao mesmo tempo e agora tem algo que mudou e não volta mais ao lugar.
Em São Paulo, às vezes estranho coisas que antes eram comuns, coisas que faziam parte do meu jeito de ser. A forma como as pessoas falam, se relacionam, ocupam o espaço, são espontâneas. Eu me sinto ao mesmo tempo dentro e fora, como se estivesse assistindo uma peça que eu já conhecia mas agora a partir dos bastidores.
No mito da caverna, Platão diz que quando a pessoa volta, ela tem dificuldade de compartilhar a experiência com o grupo, porque o grupo ainda vê só as sombras e ela, que viu a luz, não consegue mais fingir que não viu. Berlim me ensinou coisas que São Paulo não mostra, mas São Paulo tem verdades que Berlim não alcança. E aí, muitas vezes, me sinto no meio, desdobrada por Berlim, desencaixada de São Paulo.
O mito não fala sobre o que acontece depois. Sobre o que fazer quando percebemos que nenhum lugar é totalmente a nossa casa, mas nenhum deixou de ser completamente. Sobre como é acordar em Berlim e sentir falta de uma espontaneidade que aqui não existe, ou estar em São Paulo e sentir falta de um ritmo que lá é difícil alcançar.
2026 começou, já estamos quase em fevereiro e eu ainda não sei onde me encaixo. Não sei se isso vai mudar. Carrego os dois lugares comigo o tempo todo - Berlim quando estou em São Paulo, São Paulo quando estou em Berlim. Isso incomoda, mas também tem mudado permanentemente a forma como eu vejo, como eu me movo, como eu leio onde estou.
A transformação de ter saído não tem volta. Mas ficar só em Berlim também não funciona mais. Então é isso - circular entre os dois, ir e voltar, sem pertencimento completo. Não sei se vou parar de sentir falta de um quando estou no outro. Acho que não. Mas sei que é desse lugar - entre os dois, sem resolver - que eu sigo.
A Espiral em 2026 vai ser meu espaço principal para explorar esse trânsito entre mundos. Berlim, São Paulo, e agora também a China, país que tenho estudado muito e que é meu principal objetivo de viagem esse ano. Quero usar essa newsletter para mapear o que acontece nesses pontos de convergência, o que se move entre contextos, o que um lugar ensina sobre o outro.
Aproveito para compartilhar o episódio “O que aprendi com a crise dos 40”, comigo e com a Gaía Passarelli, no podcast “Que Crise É Essa”, da maravilhosa Carla Lamarca.
A terra dá, a terra quer - Antonio Bispo dos Santos
A terra dá, a terra quer foi a minha primeira leitura do ano e não tinha como começar 2026 melhor e mais inspirada.
“[…] os batuques e as comidas feitas nos batuques foram mantidos: as nossas festas são instrumento de defesa das nossas práticas alimentares, pois a festa é mais do que a Lei, o Estado não consegue quebrar os modos de vida quando eles estão envolvidos em festas.”
É um livro pequeno, poético, escrito por Antonio Bispo dos Santos, pensador quilombola do Piauí que morreu em 2023. Nele, vemos escancarado tantos preconceitos intrínsecos na nossa vida adestrada e colonizada.
Nego Bispo fala sobre um modo de vida orgânico, conectado à terra, aos vizinhos, ao que cresce ao redor. É principalmente sobre comunidade. E eu pensei nos apartamentos que habitamos, isolados, sem saber quem mora na porta ao lado, sem plantar nada, sem trocar nada, vivendo dentro de estruturas que já nos chegam prontas e não questionamos. Ele chama isto de cosmofobia, o medo que temos do cosmos, da natureza, do que é vivo.
Ele fala sobre “biointeração”, a ideia de que não se trata de preservar o meio ambiente, mas de se relacionar com ele. “Se você não der, a terra também não dá.” Simples assim. E libertador assim.
Nego Bispo se autodenominava “lavrador de palavras”. E é exatamente isso o que ele faz: lavra, revolve a terra, mostra o que estava embaixo, nos apresenta uma nova linguagem.
“A humanidade é contra o envolvimento, é contra vivermos envolvidos com as árvores, com a terra, com as matas. Desenvolvimento é sinônimo de desconectar, tirar do cosmo, quebrar a originalidade.”
Uma das partes que mais me marcou é quando ele fala sobre a necessidade de mudar a linguagem para tirar o poder das palavras do colonizador. Para ele, nomear é dominar. Se continuamos usando as mesmas palavras - como desenvolvimento, importante, humanidade - continuamos presos na mesma lógica. Ele propõe uma outra forma de falar, de pensar e de organizar o mundo. O livro é inteiro uma lindeza só.
O podcast 451 MHz tem um episódio gravado com o Nego Bispo, em 2023, meses antes de sua morte.
Vizinhança

Tenho adorado acompanhar as notícias do mundo pela lente bem humorada do Caderno do Evandro.
“The AI Slop of Pierre Huyghe” é sobre uma exposição aberta recentemente em Berlim, mas mais do que apenas falar sobre a ela, a autora explora o impacto que a “AI Slop” (slop = lixo eletrônico/conteúdo ruim gerado por IA) pode ter na arte.
Estou maratonando a série “Younger” (Netflix), em que uma mulher de 40 anos finge ter 26 para conseguir emprego no mercado editorial de Nova York. A premissa é ridícula, mas o desenvolvimento é surpreendentemente inteligente e sem pressa.
Criada por Darren Star (Sex and the City, Emily in Paris), a série tem 7 temporadas. É leve o suficiente para maratonar, esperta o suficiente para não ser vazia (como Emily in Paris). Expõe o etarismo do mercado de trabalho enquanto entrega romance, bastidores do mundo editorial e amizades femininas bem construídas. Mas, prepare-se, a trilha sonora é ruim de doer os ouvidos.
A série é de 2015, o que acaba sendo um retrato de como o mercado editorial se adaptou às redes sociais com influencers virando autores, Instagram ditando estratégias, o choque entre editores tradicionais e a lógica digital. E é nostálgico ver os millennials quando ainda eram o público-alvo de tudo, antes da Gen Z tomar conta da conversa.
A Mariana Coutinho escreveu um texto ótimo sobre a série “Younger” a partir da ótica dos millennials.
Abas aguardando leitura ou play:
An aversion to alcohol is moving the global party scene in an unexpected direction;
An Honest Conversation on AI and Humanity with Yuval Noah Harari and Irene Tracey.
Obrigada por ler até aqui e tenha uma ótima semana.
Lalai



É tu falando de SP/Berlim agora, mas podia ser eu falando de Teresina/SP entre 2019 e 2022. Nessa época eu sempre me pegava pensando numa letra do meu conterrâneo Torquato Neto, que diz assim:
“Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
e enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução”
A gente é uma espécie de caracol mesmo, os lugares nos constituem. E feliz em saber da China 🧡