É tu falando de SP/Berlim agora, mas podia ser eu falando de Teresina/SP entre 2019 e 2022. Nessa época eu sempre me pegava pensando numa letra do meu conterrâneo Torquato Neto, que diz assim:
Sinto o mesmo: não me sinto nem lá nem aqui. Acho que ser imigrante significa acabar criando um terceiro lugar pra si, um limbo pessoal e intransferível. Inclusive estou indo pro Rio hoje à noite e já estou antecipando todas as delícias e estranhamentos que eu sinto quando volto pra casa. Lindo o texto, feliz ano novo!
Sim, acredito nesse terceiro lugar... o meio. Tem algumas pessoas que conseguem sair do limbo, mas eu acho que não será meu caso, porque minhas conexões com o Brasil continuam intensas (e são intensas aqui também). Feliz ano!
Eu não tive ainda a experiência de voltar, provavelmente vou sentir tudo isso. Vejo muito da alegoria da caverna na mudança sobre como vejo o mundo agora. No olhar aqui de fora para o Brasil, encontro também Saramago, "...sair da ilha para ver a ilha".
Estou há quatro anos na Itália e no último estive mais em contato com a literatura imigrante. Seu texto - que senti ser muito autêntico e tive cheio de sentimentos que para mim são muito familiares - me fez lembrar de um conceito que conheci nessas leituras, que é o de "dupla ausência", de Abdelmalek Sayad. Basicamente esse conceito captura a tragédia social do imigrante: um indivíduo ao cruzar a fronteira em busca de outra experiência de vida, acaba por tornar-se um eterno estrangeiro em duas terras.
Me tocou muito você estar há quatro anos sem voltar. Eu não consigo, inclusive volto bastante, quase como uma necessidade. Talvez seja meu jeito de lidar com essa “dupla ausência” do Sayad - que eu não conhecia, mas gostei do conceito. O deslocamento muda o olhar pra sempre, e a gente fica nesse entre, sem pertencer totalmente a lugar nenhum.
De fato, aqui, de todos os meus familiares que fizeram a imigração, eu sou o único que permanece - me sinto aquele que se acostuma com o mal-estar - até meu filho e sua mãe foram passar um bimestrinho na areia quente de Ubatuba e ver a gente de Jundiaí.
Que saudades de Ubatuba! Eu alugaria uma casa na Almada, passaria um mês ali, para só então subir a serra e começar a visitar as pessoas.
(Mas antes, ainda passaria em Paraty, de preferência em julho, quando tem a Flip)
Devo aprofundar-me em Sayad, vi uma recorrência de citações nos textos que li sobre imigração. Me pareceu muito interessante, principalmente para ter um pouco de luz sobre a minha experiência.
Fico feliz por provocar a sua curiosidade! Boa leitura! Eu devo procurar um em italiano ou português. Acredito que o que vc achou deve ser em francês ou inglês.
Acho que o choque acontece quando constatamos que a imagem no porta retrato, que observamos diariamente, não é mais o presente.
Uma vez um professor me disse que a única constante nesse mundo é a mudança, e refleti sobre muito do que passei até ali. Ele estava certo.
É uma grande frustração quando uma situação nos faz lembrar de uma música como aquela da Legião “(…) o pra sempre sempre acaba (…)”. Que música triste! E linda!
Não tem saída. A gente tem que ficar se reinventando a todo tempo. Juntando os cacos, construindo o mosaico surreal de um eu.
Me lembrou do conceito de Solastalgia, que é a saudade de casa porque existe a possibilidade de perdê-la. Se usa muito no contexto das mudanças climáticas, mas acho que se encaixa e traduz muito os sentimentos de ser imigrante e a dúvida se o lugar familiar estará o mesmo quando retornar ❤️🩹
Nunca tinha ouvido falar sobre esse conceito. Interessante. Em alemão, temos o "Heimweh", que significa 'saudades de casa', mas nesse contexto de 'lar', algo conectado a sentir falta do lugar de origem.
Depois de muitos anos vivendo em outro país a gente termina virando uma mistura da terra natal com o novo lar. É rico e gostoso de muitas formas, mas também gera essa sensação de que estamos sempre incompletas…
Estou finalmente lendo os textos que ficaram acumulados na minha caixa de entrada e cheguei a esse seu texto com o qual me identifiquei bastante, por também viver há anos em trânsito entre a Holanda e o Brasil.
Tô com vontade de ler o livro do Antonio Bispo desde que você comentou dele na minha newsletter.
Nossa, esse livro anda me perseguindo, não lembrava de que ele estava nesta edição. Li seu comentário, olhei para o lado e o livro está ali no canto do sofá.... ah, leia e me conta! Eu ainda acho esse livro o mais bonito que li nos últimos tempos. Bjs
Essa edição me lembrou do livro "Espeleosofias", do filósofo brasileiro Charles Feitosa. Charles é muito legal. Byung-Chul Han foi inclusive colega dele quando faziam doutorado na Alemanha. O livro tenta justamente repensar, rememorar e comemorar a narrativa platônica da alegoria da caverna. Achei que talvez você também pudesse curtir.
"2026 começou, já estamos quase em fevereiro e eu ainda não sei onde me encaixo". Me identifiquei demais com seu texto e com essa sua fala. Ansioso pra acompanhar suas reflexões sobre esse tema ao longo do ano. Abs Lalai
desculpe-me ter demorado a responder seu comentário, mas só hoje ele pulou aqui na minha frente.... espero que a gente esteja se trombando aqui por essas vias virtuais. :)
nessa minha última ida ao Brasil (na virada do ano) foi assim, compartilho da mesma lógica e sentimento. voltei com essa sensação de que estou vivendo no "limbo". se é bom ou ruim? um pouco dos dois. to feliz que estou no caminho de criar minha casa aqui, mas sei que experienciarei esse limbo pra sempre.
Muito bom! Sempre uso essa alegoria da caverna das vezes que tentei voltar a morar no Brasil, é irresolvível a questão do pertencimento! realmente esse mito da caverna é igual a comédia romântica, ninguém conta o que aconteceu depois que o casal fica junto/ se casa rsss. acho que cabe a nós viventes contar essa história. Adorei!
que bacana ter pensado também nessa alegoria para o mesmo tema. Aliás, adorei a comparação do mito da caverna com comédia romântica... exatamente isso! :)
Eu sai da casa da minha mãe em agosto do ano passado e senti na pele esse deslocamento do seu centro em alguns centímetros. Imagino que esse lá e cá tenha outra potência quando envolve um oceano de distância. Felizmente, podemos sim ocupar dois lugares ao mesmo tempo.
Ler seu comentário me causou uma nostalgia me trazendo a memória de quando saí da casa dos meus pais. Uau, tem sido uma longa jornada desde então. Mas sim, da para ocupar diferentes espaços ao mesmo tempo. Obrigada pela leitura. ♥️
É tu falando de SP/Berlim agora, mas podia ser eu falando de Teresina/SP entre 2019 e 2022. Nessa época eu sempre me pegava pensando numa letra do meu conterrâneo Torquato Neto, que diz assim:
“Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
e enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução”
Você sempre trazendo lindeza para os meus comentários. Amei <3
A gente é uma espécie de caracol mesmo, os lugares nos constituem. E feliz em saber da China 🧡
adorei 'espécie de caracol', vou usar. :)
Sinto o mesmo: não me sinto nem lá nem aqui. Acho que ser imigrante significa acabar criando um terceiro lugar pra si, um limbo pessoal e intransferível. Inclusive estou indo pro Rio hoje à noite e já estou antecipando todas as delícias e estranhamentos que eu sinto quando volto pra casa. Lindo o texto, feliz ano novo!
Sim, acredito nesse terceiro lugar... o meio. Tem algumas pessoas que conseguem sair do limbo, mas eu acho que não será meu caso, porque minhas conexões com o Brasil continuam intensas (e são intensas aqui também). Feliz ano!
Eu não tive ainda a experiência de voltar, provavelmente vou sentir tudo isso. Vejo muito da alegoria da caverna na mudança sobre como vejo o mundo agora. No olhar aqui de fora para o Brasil, encontro também Saramago, "...sair da ilha para ver a ilha".
Estou há quatro anos na Itália e no último estive mais em contato com a literatura imigrante. Seu texto - que senti ser muito autêntico e tive cheio de sentimentos que para mim são muito familiares - me fez lembrar de um conceito que conheci nessas leituras, que é o de "dupla ausência", de Abdelmalek Sayad. Basicamente esse conceito captura a tragédia social do imigrante: um indivíduo ao cruzar a fronteira em busca de outra experiência de vida, acaba por tornar-se um eterno estrangeiro em duas terras.
Me tocou muito você estar há quatro anos sem voltar. Eu não consigo, inclusive volto bastante, quase como uma necessidade. Talvez seja meu jeito de lidar com essa “dupla ausência” do Sayad - que eu não conhecia, mas gostei do conceito. O deslocamento muda o olhar pra sempre, e a gente fica nesse entre, sem pertencer totalmente a lugar nenhum.
De fato, aqui, de todos os meus familiares que fizeram a imigração, eu sou o único que permanece - me sinto aquele que se acostuma com o mal-estar - até meu filho e sua mãe foram passar um bimestrinho na areia quente de Ubatuba e ver a gente de Jundiaí.
Que saudades de Ubatuba! Eu alugaria uma casa na Almada, passaria um mês ali, para só então subir a serra e começar a visitar as pessoas.
(Mas antes, ainda passaria em Paraty, de preferência em julho, quando tem a Flip)
Devo aprofundar-me em Sayad, vi uma recorrência de citações nos textos que li sobre imigração. Me pareceu muito interessante, principalmente para ter um pouco de luz sobre a minha experiência.
já está com o roteiro pronto. :) Acabei de pegar o pdf do livro de Sayad, fiquei curiosa. Obrigada pela dica.
Fico feliz por provocar a sua curiosidade! Boa leitura! Eu devo procurar um em italiano ou português. Acredito que o que vc achou deve ser em francês ou inglês.
Achei em português. Vou subir no drive e deixo o link aqui.
Que máximo! :)
Fiquei 3 anos sem voltar e foi muito difícil ver que todos mudaram, inclusive eu.
Acho que o choque acontece quando constatamos que a imagem no porta retrato, que observamos diariamente, não é mais o presente.
Uma vez um professor me disse que a única constante nesse mundo é a mudança, e refleti sobre muito do que passei até ali. Ele estava certo.
É uma grande frustração quando uma situação nos faz lembrar de uma música como aquela da Legião “(…) o pra sempre sempre acaba (…)”. Que música triste! E linda!
Não tem saída. A gente tem que ficar se reinventando a todo tempo. Juntando os cacos, construindo o mosaico surreal de um eu.
Que bonito isso! Aqui sigo reconstruindo e tentando. ♥️
Acabei de ler seu último post “Acometimento: uma carta pessoal”. É verdade! Estás de novo na Matrix.
Uau. Não consigo imaginar o que é ficar tanto tempo sem voltar. 😮
Me lembrou do conceito de Solastalgia, que é a saudade de casa porque existe a possibilidade de perdê-la. Se usa muito no contexto das mudanças climáticas, mas acho que se encaixa e traduz muito os sentimentos de ser imigrante e a dúvida se o lugar familiar estará o mesmo quando retornar ❤️🩹
Nunca tinha ouvido falar sobre esse conceito. Interessante. Em alemão, temos o "Heimweh", que significa 'saudades de casa', mas nesse contexto de 'lar', algo conectado a sentir falta do lugar de origem.
Depois de muitos anos vivendo em outro país a gente termina virando uma mistura da terra natal com o novo lar. É rico e gostoso de muitas formas, mas também gera essa sensação de que estamos sempre incompletas…
Exato! Especialmente quando somos conectadas com os dois lugares. :)
Imigrante há 10 anos, vivo os mesmos sentimentos entre Brasil, Suécia e Itália. É tão bom cruzar com textos que nos identificamos 💛
o bom é saber que na condição de imigrante, o sentimento e as vivências são bem parecidas (gente, e no seu caso, três países!!)
Estou finalmente lendo os textos que ficaram acumulados na minha caixa de entrada e cheguei a esse seu texto com o qual me identifiquei bastante, por também viver há anos em trânsito entre a Holanda e o Brasil.
Tô com vontade de ler o livro do Antonio Bispo desde que você comentou dele na minha newsletter.
Nossa, esse livro anda me perseguindo, não lembrava de que ele estava nesta edição. Li seu comentário, olhei para o lado e o livro está ali no canto do sofá.... ah, leia e me conta! Eu ainda acho esse livro o mais bonito que li nos últimos tempos. Bjs
Conto, sim!
Essa edição me lembrou do livro "Espeleosofias", do filósofo brasileiro Charles Feitosa. Charles é muito legal. Byung-Chul Han foi inclusive colega dele quando faziam doutorado na Alemanha. O livro tenta justamente repensar, rememorar e comemorar a narrativa platônica da alegoria da caverna. Achei que talvez você também pudesse curtir.
Uau, que referência demais. Eu não conhecia o Charles Feitosa, vou procurar o livro. Obrigada por compartilhar :)
"2026 começou, já estamos quase em fevereiro e eu ainda não sei onde me encaixo". Me identifiquei demais com seu texto e com essa sua fala. Ansioso pra acompanhar suas reflexões sobre esse tema ao longo do ano. Abs Lalai
desculpe-me ter demorado a responder seu comentário, mas só hoje ele pulou aqui na minha frente.... espero que a gente esteja se trombando aqui por essas vias virtuais. :)
Este sentimento pulverizado de pertencer, né? Que bonita a descrição; obrigada, Lalai!
Obrigada, Surina! <3 Inclusive amei muito o seu texto sobre 'ser maioria', porque no fim das contas, é sobre isso: pertencer. ;:)
Adorei o podcast. E ansioso pelos relatos da China!
oba! :)
Ótimo texto! Fiquei curiosa pra te ler falando da China. E obrigada pela menção ao meu texto ❤️
opa!! vamos ver quando me sentirei segura para começar a falar das coisas que ando estudando sobre o país, se será antes de ir para lá... :)
nessa minha última ida ao Brasil (na virada do ano) foi assim, compartilho da mesma lógica e sentimento. voltei com essa sensação de que estou vivendo no "limbo". se é bom ou ruim? um pouco dos dois. to feliz que estou no caminho de criar minha casa aqui, mas sei que experienciarei esse limbo pra sempre.
também gosto da sensação de criar a casa nesse outro lugar, fora da caverna... a minha tá tão 'casa' já que já já vira uma nova caverna... hahahaha
Muito bom! Sempre uso essa alegoria da caverna das vezes que tentei voltar a morar no Brasil, é irresolvível a questão do pertencimento! realmente esse mito da caverna é igual a comédia romântica, ninguém conta o que aconteceu depois que o casal fica junto/ se casa rsss. acho que cabe a nós viventes contar essa história. Adorei!
que bacana ter pensado também nessa alegoria para o mesmo tema. Aliás, adorei a comparação do mito da caverna com comédia romântica... exatamente isso! :)
Eu sai da casa da minha mãe em agosto do ano passado e senti na pele esse deslocamento do seu centro em alguns centímetros. Imagino que esse lá e cá tenha outra potência quando envolve um oceano de distância. Felizmente, podemos sim ocupar dois lugares ao mesmo tempo.
Ler seu comentário me causou uma nostalgia me trazendo a memória de quando saí da casa dos meus pais. Uau, tem sido uma longa jornada desde então. Mas sim, da para ocupar diferentes espaços ao mesmo tempo. Obrigada pela leitura. ♥️