O adversário
Vivendo ao lado de quem inventa a própria vida
🎧 Trilha sonora para esta edição: Grouper - Ruins
Li “O Adversário” numa sentada, o que nunca faço, mas não consegui parar. Emmanuel Carrère narra a história real de Jean-Claude Romand, um homem que convenceu família e amigos de que era médico da OMS. Nunca foi. Nem médico era. Enquanto todos acreditavam nele, ele dirigia até uma floresta e ficava sentado no carro esperando o dia passar. Quando se cansava, inventava viagens a trabalho. Ficava num hotel por dias e voltava para casa cheio de lembrancinhas do país “visitado”, compradas numa loja de aeroporto. Estudava guias de cidade para não falar besteira quando, na volta, fosse contar as histórias. Telefonava todo dia para dizer que horas eram e como estava o clima em São Paulo ou em Tóquio. Fez isso por dezoito anos.
“Um mentiroso costuma se esforçar para soar plausível: não sendo plausível, aquilo que ele contava só podia ser verdade.” - O Adversário, Emmanuel Carrère
Pensei nele quando li essa frase. Fazia tempo que eu não pensava.
Eu estava encostada na bancada da cozinha toda branca e polida, encarando ele, esperando uma resposta. Ele me devolvia o olhar vazio, distante. Respondeu “Sim, fui eu”. Naquele momento, mesmo já sabendo de quase tudo, meu mundo ruiu. A gente era amigo unha e carne havia mais de oito anos, tinha projetos juntos e dividia um apartamento há algum tempo.
Ao ouvir a resposta, todas as histórias mal contadas fizeram sentido. Procurei alguma emoção no rosto dele, mas ele só me encarava, indiferente. Senti as pernas bambearem enquanto eu balbuciava para ele ir embora do apartamento. Saí da cozinha, o corpo inteiro tremia.
A gente se conheceu no começo dos anos dois mil, num encontro de frequentadores do Grind, a domingueira rock ‘n’ roll da Loca, antigo club em São Paulo. Era um sábado de sol no Parque do Ibirapuera, um grupo de gente esquisita toda vestida de preto num encontro onde quase ninguém se conhecia. Eu era uma garota da periferia tentando encontrar a própria turma. Ele, mais velho que eu, bonito, charmoso, culto, era exatamente o mundo em que eu queria entrar. A partir dali, a gente começou a se ver com frequência.
De repente, eu frequentava a casa bacana onde ele morava com uma estilista ainda mais descolada que ele, numa vilinha na Brigadeiro Faria Lima. Me deslumbrei. Quando me dei conta, a gente era inseparável. Ele tinha sempre boas histórias. Contava ter sido cicerone da Björk quando ela visitou o Brasil com os Sugarcubes, falava francês, conhecia cinema como ninguém, andava sempre com um livro na mão. Dizia ter estudado em Paris e tido aula com o Godard. Hoje não sei se tem alguma verdade nessas histórias.
Meus relacionamentos nunca duravam muito, porque ele sempre tinha ressalvas em relação às pessoas de quem eu me aproximava. Eu cortava as relações antes mesmo de elas começarem.
Tinha também uma tatuagem em comum, “Je est un autre”, do Rimbaud. Eu é um outro. A minha no cóccix, a dele no braço esquerdo. Um dia ele me contou, com orgulho, que frequentou um terapeuta por um ano inteiro narrando a própria vida como se fosse o poeta francês. No fim do ano, disse ao terapeuta: “Estou aqui mentindo há um ano e você acreditou em tudo.” Na época, achei a história engraçada. Hoje ela me parece menos uma anedota do que uma confissão.
É o que Carrère mostra no livro: não existe uma grande mentira. Existe uma arquitetura. Uma história sustenta a outra, até que já não tenha espaço para sair dela.
Os sinais estavam lá. Eu via todos eles e jogava cada um para o fundo da gaveta.
Aos poucos, o grupo de amigos virou uma guerra fria. Ele colocava todo mundo contra todo mundo, e como todos queriam continuar ao lado dele, ninguém confrontava ninguém.
Um amigo próximo, para quem eu indiquei ele para dividir um apartamento, vivia me confidenciando perrengues esquisitos: depósitos feitos com envelopes vazios no caixa eletrônico, comprovantes entregues, dinheiro que nunca caía na conta. Mesmo assim, fui morar com ele depois. Eu achava que eram mal-entendidos, até me ver vivendo a mesma história.
Morar com ele foi ficando exaustivo. Eu vivia no pé dele para receber o aluguel, que vinha sempre picado. O tanque de gasolina do meu carro estava sempre no mínimo porque ele usava e não abastecia. Isso me rendeu momentos terríveis com o carro morrendo em plena Avenida Nove de Julho.
A grande virada foi em Buenos Aires, numa viagem de ano novo. Primeiro foram duzentos dólares em notas manchadas, que ele trocou por pesos, descaradamente, com um dos amigos que viajava com o grupo. Ninguém tocou no assunto, e a viagem seguiu.
Quando meu voo de volta foi cancelado, ele decidiu ficar comigo mais uma noite. A gente se hospedou na casa de amigos e nessa mesma noite sumiram cem pesos da minha amiga.
Fui saber muito depois que acharam que eu tinha roubado o dinheiro. Confiavam tanto nele que a suspeita caiu no lado errado. O inocente vira suspeito porque o culpado é plausível demais para ser culpado.
Penso se ele mesmo já não estava dando conta da narrativa que tinha criado e começou a se sabotar. Porque, de repente, começou a deixar rastros.
Foi na cozinha branca que minha casa caiu de vez, mesmo sendo só a confirmação do que eu já sabia. Mandei mensagem para todos os amigos próximos e comecei a saber de histórias que eu nem imaginava. Ao mesmo tempo, me senti cúmplice.
Ele ainda ficou no apartamento por pouco mais de um mês, dizendo que procurava um lugar para morar. Passei esse tempo noiada, sem coragem de comer em casa, trancando a porta do quarto todas as noites.
"Normalmente, uma mentira serve para acobertar uma verdade, algo que talvez provoque vergonha, mas é real. A mentira dele não acobertava nada. Sob o falso dr. Romand não havia um verdadeiro Jean-Claude Romand." - O Adversário, Emmanuel Carrère
Quando li, vi ele. E vi também a garota que deixou tudo aquilo acontecer. Hoje ela é quase tão estranha para mim quanto ele. Não fui enganada por acaso. Fui escolhida.
Para continuar no mood
Três Impostores, de Arthur Machen. Um clássico esquisito e ótimo, em que a mentira vai contaminando tudo e ninguém parece ser exatamente quem diz ser. Está gratuito no Kindle Unlimited.
O Impostor (Bart Layton, 2012). Um homem se passa pelo filho desaparecido de uma família americana. O mais inquietante é que, mesmo sendo diferente fisicamente do filho, a família a aceitá-lo.
O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith, que deu origem ao filme homônimo. Tom Ripley não imita por ganância, imita porque não suporta ser ele mesmo.
Inventando Anna (Netflix). Anna Sorokin enganou a elite de Nova York não com provas, mas com a certeza de quem nunca duvida de si.
Para sair dessa com algum humor: a versão fofoca do caso da falsa adolescente de 12 anos, pela Ju Pires. Ri alto.


eu também fui vítima de uma amizade assim: foi num apartamento gigantesco na Rebouças, mais ou menos 10 anos depois da sua história.
me deu tremores ler o texto, mas também me sinto aliviada de não ser a mesma pessoa que nunca duvidou do ser humano estapafúrdio quw povoou minha vida por aquele breve período.
lembro como foi brutal ser a primeira a descobrir a farsa e os dois meses que demorou para os outros amigos se tocarem que eu estava falando a verdade.. desolador. mas cá estamos.
sobrevivemos
Esse tipo de pessoa sempre me intriga. Seria uma condição psicológica (patológica), algum tipo de psicopatia talvez? Nunca me deparei com alguém assim, ainda bem, mas conheço algumas pessoas que mentem e acreditam realmente na mentira que contam, mesmo que haja testemunhas do contrário. Fazem isso com tanta frequência que acho que nem sabem distinguir mais o que é real do que não é.